A importância do chorar – por Renata Soifer

De Mãe para Mãe - Dicas dos especialistas - Psicologia18/10/16 By: Renata Soifer Kraiser
(3) Comentários

 

Olá, meninas!

Como estão?

Hoje, a nossa querida colunista e psicóloga, Renata Soifer Kraiser, que é autora do livro “O sono do meu bebê”, veio falar sobre o choro. A maioria das pessoas acha que chorar é ruim, mas ela explica que existe uma grande importância no choro dos pequenos.

Confiram o post que ficou super legal!

 


 

A importância do chorar

A importância do chorar - por Renata Soifer

 

Chorar.

Algo tão natural. Mas tão evitado.

Todos choramos. Ou ao menos temos vontade de chorar.

O choro e a lágrima têm uma função importantíssima do ponto de vista psíquico. Eles expressam aquilo que as palavras não conseguem expressar. Dão vazão a emoções, dores, medos, alegrias, raiva, tristeza, alívio.

Chorar ajuda a diminuir o estresse. Mas por alguma razão, na nossa cultura, chorar é visto como algo ruim. É sinal de fraqueza, de imaturidade,  ou de incompetência.

Ainda na infância, o direito ao choro se limita ao momento do nascimento na melhor das hipóteses. Depois o bebê fica proibido de chorar e os pais que conseguem evitar o choro a qualquer custo se orgulham da façanha: “Nunca deixei meu filho chorar!” Entende-se que a criança que não chora é mais feliz. Será?

Os pais usam o peito, a mamadeira, a chupeta, o tablet ou qualquer outra coisa como esparadrapo das emoções e a criança passa a usar a iminência do choro como forma de controlar os pais: “Ou faz o que quero ou eu choro! E se eu chorar, isso mostra o quão ruim vocês são como pais!”

Para evitar a culpa avassaladora que ecoa nos grupos do Facebook e blogs que acreditam em uma espécie de “escravidão”, principalmente materna, como forma de afirmação do amor incondicional dos pais pelos filhos, onde os limites como função estruturante da psique são abandonados, chorar passa a ser direito dos pais quando desesperados, mas nunca dos filhos.
Uma enorme confusão começa ainda na primeira infância.

O bebê recém-nascido que chora, precisa necessariamente ser atendido prontamente. Para psicologia isto já está bem claro, uma vez que o bebê recém-nascido não tem condições neurológicas de entender o que é o tempo e o espaço. Mas a medida que cresce, gradualmente pode e deve ser exposto a doses suaves de frustração para que possa aprender a esperar, para que aos poucos compreenda que não é o centro do universo.

É por volta dos 6 meses de vida que o bebê já é capaz de entender que a mamãe se afasta mas volta. Ele já é capaz de ligar-se a outras realidades afetivas como o pai e os avós. Esses vínculos para além do peito e da mãe precisam ser estimulados para que o bebê possa se relacionar com outras figuras de afeto.

Também a partir dos 6 meses, a livre demanda na amamentação precisa ser substituída por uma rotina de alimentação com horários para almoço e jantar. A amamentação noturna já pode deixar de acontecer gradualmente e o bebê pode e deve continuar mamando ao acordar, no lanche e antes de dormir. Desmamar durante a madrugada garante ao organismo do bebê permanecer em metabolismo lento, condições importante para que ele possa produzir adequadamente os hormônios próprios do sono, como os hormônios da tireoide, do crescimento, a diminuição do cortisol e os hormônios que regulam saciedade e fome. Alimentar o bebê com mais de 6 meses durante o sono, quando seu relógio biológico já precisa ser ajustado para uma condição próxima ao da criança maior, prejudica a o ritmo circadiano que envolve a produção desses hormônios.

Esse ritmo tão importante para a saúde e para regular o sono da família, muitas vezes é simplesmente ignorado, uma vez que os pais não suportam ou não sabem lidar com a frustração de seu bebê e ao invés de acalmá-lo e impulsioná-lo em direção a independência, usam o argumento da fome (física ou emocional) para evitar que o bebê chore, fechando lhe a boca com o peito ou a mamadeira.

Após os 2 anos de idade pela OMS a criança deixa de ser bebê. Mas a criança que não pode chorar, que viu nos olhos dos pais a culpa brotar a cada vez que ela se chateava,  passa a entender que se ela chora, ela é coitada. E como dizia Winnicott, “Os pais são o primeiro espelho dos filhos”. Se os pais a olham assim, é assim que a criança vai se enxergar, o que é realmente muito ruim sua autoestima.

Ainda assim, a vida é repleta de desafios, de frustrações e o “não” que não pode ser dito pelos pais de forma natural, passa a ser um problema cada vez maior para a criança.

Ela, que não pode chorar, não entrou em contato com suas emoções. Não refletiu sobre o tempo, sobre a espera, não aprendeu a tolerar a frustração, não desenvolveu recursos para administrar seu descontentamento.

Para os pais imediatistas, o choro visto como um problema foi resolvido rapidamente. Mas como fica isso a longo prazo?
Que tipo de adulto se tornará aquela criança que não pode entrar em contato com suas emoções?

A criança mimada tem grandes chances de se tornar um adulto deprimido. A frustração na vida adulta aparece a todo instante. É o chefe que não dá o aumento, é o colega de equipe que não faz seu papel, é o trânsito que impede de chegar no horário, é a paixão não correspondida. Quando o adulto se depara com situações frustrantes e já tem referências internas de como lidar com as adversidades da vida, ele as supera sem maiores problemas. Mas a criança que foi privada dessa experiência terá muito mais dificuldade.

Na vida adulta a regra é a mesma. Proibido chorar. Quantas e quantas vezes eu encontrei com adultos que diziam que tudo o que precisavam era conseguir chorar, mas não conseguiam. Quantas vezes eu não vi a cena da pessoa que chora ser consolada com a frase: “Não chora, vai… Promete para mim que você não vai mais chorar?…” Ou ainda, “Estou com cara de choro?”

Chorar seria apenas para os fracos. Como se entrar em contato ou demonstrar emoções fosse algo ruim. Do adulto se espera distanciamento das emoções e produção eficiente de lucro. Mais ou menos como se ele não pudesse ser humano.

Chorar pode ser também uma forma de extravasar emoções agradáveis, como os que choram por sentirem-se realizados, de alívio, ou pela mais pura emoção.

Uma imagem que deixa isso bem claro foi a final do vôlei masculino nas Olimpíadas do Rio 2016; os brasileiros vitoriosos choravam de alegria e emoção pela conquista do ouro e os italianos choravam de tristeza por terem ficado com a prata. Outra cena emblemática das Olimpíadas foi aquela onde a atleta brasileira também do vôlei, correu para chorar nos braços da mãe ao ser eliminada pelo time da China. A mãe sabiamente a abraçou e ao invés de ficar com dó da filha ou achar que tudo foi uma tremenda injustiça, soltou a frase:

“Seja forte minha filha! Nós estamos aqui com você!”

Exatamente como deve ser. O choro que causa problemas é o choro do abandono, não o da frustração.

Aquele que chora é aquele que tem coragem de se conectar a sua emoção, seja ela agradável ou não. Ele não reprime a expressão dessas emoções, pois não vê o choro como algo a ser evitado. Entrando em contato com estas emoções a pessoa passa a se conhecer melhor, a se compreender melhor e vai ganhando resiliência para lidar com as problemáticas que surgem na vida.
Por outro lado aquele que é impedido de chorar, que tem a boca calada por comida ou qualquer outra forma de calar, perde a chance de lidar com as diversas emoções da vida. Aprende que chorar é ruim ou inadequado. Chorar incomoda. Chorar é coisa de quem não foi amado ou não teve colo de mãe.

Essa associação da comida/peito como resposta a qualquer desconforto após os 6 meses de idade também é muito perigosa. A criança que cresce fazendo essa relação tem mais chances de ter problemas com seu peso na vida adulta.
Mas então devemos largar nossos bebês chorando sozinhos?

Claro que não! Precisamos sim tomar muito cuidado com ideias radicais.

Chorar não é sinônimo de abandono. Chorar acompanhado, com alguém que acolhe o choro, respeita a necessidade da criança ou da pessoa de extravasar é muito diferente de “largar a criança chorando”.

O problema está na leitura que reduz todo e qualquer choro a algo ruim e que deve ser evitado a qualquer custo, ensinando desde cedo que expressar as emoções é algo a ser evitado.

O respeito a criança e ao ser humano passa pelo direito de expressar e de se conectar as suas emoções. E o choro é uma forma muito importante de fazer isso.

 


 

Renata Soifer Kraiser é psicóloga e Mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Autora do livro “O sono do meu bebê”, ed.CMS, fruto de seu mestrado sobre este tema.

Para conhecer melhor o trabalho da Renata, acesse: www.terapeuta.psc.br.

Telefone: 11-3031-4043

 

Deixe seu comentário:

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

3 Comentários:A importância do chorar – por Renata Soifer
  1. Avatar
    Talita Rodrigues Nunes

    Nossa! Excelente reflexão! Meu filho tem apenas 3 anos, mas já percebe que a sociedade reprime quem chora. Tenho que lembrá-lo constantemente de que chorar não é errado.
    Vai para a minha lista de melhores links da semana.
    Obrigada por compartilhar!
    Talita
    somelhora.com.br

  2. Avatar
    Adriana M. A. Rocha

    Ótimo texto!

  3. Avatar
    Maria Aparecida Machado

    Muito legal! Esclarecedor. A gente realmente pensa que o bebê chora por fome ou dor. Obrigada, é um texto muito importante!

X Leia também: