As crianças e os aparelhos eletrônicos – por Carla Poppa

De Mãe para Mãe - Dicas dos especialistas - Psicologia25/06/18 By: Carla Poppa
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Oi, meninas!

Tudo bem?

A tecnologia é uma realidade no nosso dia a dia, mas precisamos saber o limite, por isso um dos assuntos mais pedidos aqui no blog é a interação dos pequenos com aparelhos eletrônicos!

No post de hoje, a nossa querida colunista e psicóloga, Carla Poppa, fez um texto super bacana falando sobre como fazer isso ser uma coisa saudável e não prejudicial às crianças.

Confiram!

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As crianças e os aparelhos eletrônicos

As crianças e os aparelhos eletrônicos - por Carla Poppa

 

Nesses últimos anos, surgiram tantas novas possibilidades de uso dos aparelhos eletrônicos com acesso a internet (diferentes canais de youtube e séries, por exemplo), que o ipad, o celular e/ou o computador substituíram para esta geração, a função de entretenimento que a televisão exercia para as gerações anteriores.

Nesse contexto tão diferente do que vivemos nas nossas infâncias, é compreensível que os pais se sintam inseguros, sem saber o que podem permitir e quais limites precisam colocar para seus filhos usarem estes aparelhos. Para ajudar um pouco nesses questionamentos, pensei em explicar uma maneira de cuidar do que a criança assiste e das interações que ela vivencia de forma virtual e como perceber quando a criança usa estes aparelhos de maneira excessiva e quais os possíveis significados desta dependência.

 

Como cuidar do que a criança assiste nos aparelhos eletrônicos (computador, ipad, celular) e das interações que ela vivencia de forma virtual (nas mídias sociais e grupos de WhatsApp).

Quando o filho ainda é um bebê, muitos pais cuidam dele com a intenção de controlar o seu comportamento. Isso é compreensível porque as interações com um bebê estão mesmo sempre influenciadas pela intenção dos pais de controlar os horários de dormir, de acordar, a alimentação e o que a criança pode ou não fazer. Esta, porém, desde período inicial da vida da criança, precisa ser uma das dimensões das interações com ela. A outra dimensão tão, ou talvez mais importante do que esta, é investir na construção do vínculo, que não é feito por meio das tarefas e do controle, mas sim pelo afeto, pela atenção, pela diversão e pelo diálogo.

Quando as interações ficam restritas ao controle, conforme a criança cresce e passa a ter experiências nas quais os pais não estão presentes fisicamente, os pais podem ficar angustiados, na medida em que percebem que não conseguem mais controlar o comportamento do seu filho(a). No contexto atual, que oferece um espaço próprio para a criança no mundo real e também virtual, a angústia dos pais quando sentem que não podem controlar mais o que os filhos fazem fica acentuada, pois os riscos para a criança parecem aumentados e estes pais sentem que a sua capacidade de influenciar o comportamento e as escolhas do filho(a) esta muito diminuída.

Muitos pais nesse momento tentam insistir com uma força ainda maior no modelo do cuidado baseado no controle e passam a investigar tudo o que a criança faz. Apesar deste ainda ser um cuidado importante, novamente não pode ser a única dimensão das interações com a criança mais velha! Conforme a criança cresce, a única maneira de se manter presente nas suas experiências e influenciar suas escolhas e atitudes é por meio da comunicação e do diálogo. E só quando existe um canal de comunicação na relação dos pais com seu filho(a), que a criança mais velha sente que pode compartilhar as experiências que vive quando está sozinha e que os pais percebem que a sua opinião e orientação é capaz de influenciar as suas escolhas, o que proporciona uma sensação de confiança e segurança tanto para os pais quanto para as crianças.

Se você percebe que se sente muito angustiada(a) quando seu filho esta no celular  falando com amigos no WhatsApp, ou quando fica assistindo vídeos, pois não sabe como evitar que ele se coloque em situações que o deixe vulnerável a relações e informações inadequadas; e diante dessa angustia você percebe que a sua reação é controlar (olhar as conversas do seu filho no celular; investigar o computador dele por exemplo); experimente manter o controle e a vigilância que em certa medida são mesmo necessários, mas tente também investir parte da sua energia e atenção no fortalecimento do vinculo de confiança entre vocês.

O grande desafio é que o vinculo de confiança, que é a base de sustentação para a construção do canal de comunicação entre pais e filhos, é construído no dia a dia, em situações que na maioria das vezes não estão relacionadas ao uso dos aparelhos eletrônicos, que é o principal tema de interesse dos pais nessas circunstancias.   O vinculo é construído sempre que existe um momento de contato com a criança sem que este contato seja atravessado pela necessidade de comprimir uma tarefa (uma brincadeira que você faz e só se mantém concentrada no momento presente, sem a intenção de ensinar algo para seu filho, por exemplo). Nesses momentos, a criança e a mãe, ou o pai, se “encontram” e cada encontro é como se fosse uma parte do canal de comunicação que é construída!

 

Como perceber quando a criança usa estes aparelhos de maneira excessiva e quais os possíveis significados desta dependência.

Assim, influenciar o que a criança acessa e assiste nos aparelhos eletrônicos para orientá-la a fazer boas escolhas é possível quando existe um canal de comunicação construído na relação. Por outro lado, sem esse canal, que é a abertura por meio da qual conseguimos compartilhar nossas experiências, a criança tende ao isolamento. Ou seja, quando esta fechada, a criança tem dificuldade para conversar e se expressar de uma maneira mais criativa. Com isso, toda energia que é despertada pelas diferentes emoções que ela viveu ao longo do dia, tende a permanecer em seu corpo, o que a deixa em um estado constante de agitação e ansiedade. O uso que essas crianças fazem dos vídeos, das series, e mesmo das relações no mundo virtual não é apenas de entretenimento; o contato com os aparelhos eletrônicos se torna uma maneira de se anestesiar diante do incomodo provocado por esse excesso de energia retida no seu corpo.

Para identificar se seu filho(a) faz uso dos aparelhos eletrônicos de maneira excessiva, preste atenção no uso que ele faz do mundo virtual. Se tiverem a função de entretenimento e seu filho conversar com você sobre o que ele assiste e quais interações que ele tem no celular e você percebe que consegue orientá-lo ao mesmo tempo em que mantem certa vigilância, muito provavelmente não existe motivo para preocupação. Por outro lado, se seu filho(a) for muito agitado, ansioso, tem dificuldade de se comunicar e você percebe que ele (a) também tem dificuldade para se desconectar dos aparelhos eletrônicos, é importante investir na construção do canal de comunicação.  E, nesses casos, a psicoterapia pode ajudar a orientar os pais nessa construção, ao mesmo tempo em que cuida da ansiedade da criança.

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Carla C Poppa é doutora em psicologia clínica pela PUC-SP, professora do curso de especialização em Gestalt Terapia e de cursos de psicoterapia de crianças no Instituto Sedes Sapientiae.

Atende em seu consultório crianças, adolescentes e adultos, onde também orienta pais em sessões individuais ou em grupo. Para falar com ela escrevam para: [email protected] ou acessem: www.carlapoppa.com.br

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