Antes da primeira mordida: como a criança aprende a mastigar?

Antes da primeira mordida: como a criança aprende a mastigar?

Entenda como a criança aprende a mastigar. Um processo que começa muito antes da primeira colherada e envolve corpo, boca e sensações.

Criança aprende a mastigar

Oi Mamães e Papais, muita gente pensa que mastigar é instintivo, mas essa habilidade se constrói aos poucos, bem antes da primeira colherada.

A Dra. Patrícia Junqueira, Fonoaudióloga e especialista em Motricidade Orofacial, explica como a criança aprende a mastigar, do controle do corpo ao desenvolvimento das estruturas da boca.

Ela traz sinais que merecem atenção da família. Então, leiam esse guia prático para quem quer entender o que está por trás desse processo e como apoiar o filho em cada etapa.


Você sabia que o aprendizado da mastigação começa antes da primeira colherada?

Quando o bebê leva as mãos e mordedores seguros e adequados à idade à boca, explora sensações e movimentos que ajudam a preparar o caminho para mastigar. Essa descoberta faz parte de um processo maior, que acompanha o desenvolvimento de toda a criança.

A boca não aprende sozinha

Aprender a mastigar depende também do desenvolvimento global. Sustentar a cabeça, ganhar estabilidade para sentar, coordenar as mãos para alcançar um alimento e levá-lo à boca: essas conquistas participam da aprendizagem alimentar.

As estruturas da boca e a forma como funcionam também fazem diferença. A mobilidade da língua, o encaixe dos dentes (chamado de oclusão), os movimentos da mandíbula e a ação dos lábios e das bochechas participam da mastigação.

Um frênulo da língua curto que restrinja seus movimentos, por exemplo, pode dificultar a movimentação do alimento dentro da boca. Por isso, sua avaliação precisa considerar a função, além da aparência. Alterações na oclusão também podem influenciar a maneira como a criança morde e tritura os alimentos.

Bebê com frênulo da língua
Bebê com frênulo da língua

Outro aspecto é a percepção sensorial: como a criança sente a textura, a temperatura, o sabor e a presença do alimento dentro da boca. Essas informações ajudam a perceber onde a comida está e a organizar os movimentos para mastigá-la. Para algumas crianças, determinadas sensações podem ser desconfortáveis e tornar essa experiência mais desafiadora.

Tudo isso se conecta à saúde, ao conforto, à curiosidade e às oportunidades de aprender durante as refeições. Por isso, quando existe uma dificuldade, precisamos olhar para a criança inteira, sem atribuir o problema a um único fator.

Quando a mastigação começa?

Por volta dos seis meses, com o início da alimentação complementar e os sinais de prontidão, o bebê encontra novas oportunidades de aprender. Entre seis e nove meses, costumam aparecer movimentos iniciais de amassar o alimento com a mandíbula. Aos poucos, ele amplia a capacidade de movimentar a comida dentro da boca e mastigar.

Essa habilidade não fica pronta de uma hora para outra. As idades ajudam a acompanhar o desenvolvimento, mas também precisamos observar a qualidade e a evolução das habilidades de cada criança.

Como ajudar no dia a dia?

#1 Observe o corpo antes de olhar para a colher.

A criança precisa estar sentada com segurança, com cabeça e tronco estáveis e os pés apoiados. Uma posição confortável favorece sua participação na refeição. Evite oferecer comida enquanto ela está deitada, andando ou correndo.

#2 Dê oportunidades para conhecer a comida.

Olhar, tocar, apertar, cheirar e levar à boca fazem parte dessa descoberta. Permita que a criança participe, inclusive quando recebe ajuda com a colher. A sujeira possível de limpar pode fazer parte de uma experiência importante!

#3 Faça a consistência acompanhar o desenvolvimento.

No início, os alimentos podem ser amassados com o garfo. Conforme a criança ganha habilidade, ofereça preparações menos amassadas, picadas ou desfiadas. Manter tudo sempre liquidificado reduz as oportunidades de experimentar outras consistências. Se houver uma orientação específica de saúde, a adaptação deve ser individualizada.

#4 Escolha desafios possíveis e seguros.

Abóbora bem cozida, banana madura e outros alimentos macios permitem explorar novas texturas. O preparo, o formato e o tamanho precisam ser adequados à criança. Alimentos duros não devem ser usados como exercício para aprender a mastigar. Então, evite castanhas inteiras, uvas inteiras e pedaços duros de maçã ou cenoura cruas. Supervisione sempre.

#5 Compartilhe a refeição e respeite o tempo de cada porção.

Sempre que possível, sente-se e coma junto. A criança aprende também observando. Espere que ela termine de lidar com o alimento antes de oferecer mais; não é necessário preencher cada pausa com outra colherada.

#6 Leve o desconforto a sério.

Quando comer é difícil, repetir “mastiga!” pode não ajudar. A criança pode precisar de apoio para lidar com o movimento, a textura ou algum desconforto físico. Pressionar, distrair para colocar comida na boca ou insistir diante do sofrimento pode tornar a refeição ainda mais difícil.


Quais sinais merecem atenção?

Procure avaliação se você percebe que seu filho:

  • Tosse ou engasga com frequência ao comer ou beber;
  • Mantém o alimento na boca por muito tempo ou tem dificuldade para mastigá-lo;
  • Aceita somente consistências muito específicas e não consegue avançar para outras;
  • Apresenta ânsias intensas ou vômitos frequentes nas refeições;
  • Chora, se cansa ou demonstra desconforto repetidamente ao comer;
  • Faz refeições muito prolongadas ou apresenta dificuldade para ganhar peso;
  • Respira frequentemente pela boca ou parece ter dificuldade para conciliar a respiração com a alimentação.

Esses sinais não definem, sozinhos, um diagnóstico, mas merecem ser compreendidos. Em caso de dúvida, procure um fonoaudiólogo especialista em Motricidade Orofacial, com experiência em alimentação infantil. Esse profissional poderá avaliar as estruturas orais e as habilidades da criança e orientar a família, em parceria com o pediatra e outros profissionais quando necessário. Não é preciso esperar o peso cair para buscar ajuda.

Uma ânsia ocasional ao explorar uma textura pode acontecer. Já a incapacidade de respirar, chorar ou tossir de forma eficaz indica uma emergência e exige socorro imediato.

Aprender a mastigar faz parte de aprender a comer, e aprender a comer faz parte de se desenvolver.

Para a família, isso significa oferecer oportunidades, acompanhar as descobertas e reconhecer quando é necessário apoio. Com segurança, conforto e espaço para participar, a criança pode construir uma relação mais confiante com a comida.


Por fim, se gostou desse post da Dra. Patricia Junqueira, aproveite para ler também: “Seletividade alimentar infantil: Seu filho recusa tudo à mesa? O que os pais não percebem.” e conheça o seu curso “Por que meu filho não quer comer?“.


Este post do Just Real Moms foi cuidadosamente elaborado por um médico altamente qualificado, trazendo informações confiáveis e embasadas para você. Fique por dentro dos insights e conselhos de um verdadeiro especialista no assunto!
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Sobre a Dra. Patricia Junqueira (CRfa. 5567)

Instagram: @Patricia.Junqueira

Graduada em Fonoaudiologia pela PUC-SP, com 36 anos de atuação clínica especializada.

Referência nacional no tratamento responsivo do distúrbio alimentar pediátrico e uma das primeiras profissionais do Brasil a sistematizar essa abordagem.

Doutora em Distúrbios da Comunicação Humana pela UNIFESP (2000), Mestre em Distúrbios da Comunicação pela PUC-SP (1995) e Especialista em Motricidade Orofacial pelo CFFA (1992).

Há 11 anos, idealiza e coordena o Instituto de Desenvolvimento Infantil, onde lidera uma equipe multidisciplinar formada por fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, nutricionistas, psicólogos e psicopedagogos.

Ministra formações para profissionais de saúde no Brasil e em outros países.


A informação disponível neste site não substitui o parecer de um médico profissional. Sempre consulte o seu médico sobre qualquer assunto relativo à sua saúde, à saúde dos seus filhos e familiares e aos seus tratamentos e medicamentos.

Crédito: Cortesia

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