Relato de Mão: Mães não podem entrar em pânico – e a sobrecarga materna explica

Relato de Mão: Mães não podem entrar em pânico – e a sobrecarga materna explica

A comida no fogo, o grupo bombando, o chefe cobrando, o marido cobrando. E então o corpo parou. Porque sobrecarga materna não avisa, ela explode.

Mães não podem entrar em pânico - sobrecarga materna

Oi Mamãe, você já sentiu que pode admitir que está cansada, desde que tudo continue funcionando? Que pode pedir ajuda desde que, no final, a resolução seja sua?

A escritora e mãe, Jan Cordeiro, do Instituto Mães que Escrevem, narra com honestidade brutal o dia em que a sobrecarga materna a obrigou a parar no meio do caos da vida real.

Não é um texto sobre fraqueza. É sobre um sistema inteiro que foi construído para depender que mães nunca parem, nunca falhem, nunca entrem em pânico.

Leia até o fim, e manda para aquela mãe que precisa saber que não é só ela.


Naquela tarde ela sentiu como se o coração fosse explodir. Perdeu o ar, as mãos começaram a tremer, suou frio, a pressão subiu muito. Ela sentiu um desespero tão grande como nunca havia sentido, mas isso não estava no planejamento.

A comida ainda estava no fogo, o uniforme da escola estava amassado, o grupo de WhatsApp das mães tinha 237 mensagens não lidas, o chefe queria o relatório “pra ontem”, o marido cobrava que ela não o havia lembrado de comprar a ração para os cachorros, tinha que buscar o mais velho na escola. No meio de tudo isso, o corpo dela a obrigou a parar.

Uma crise de pânico. Logo agora?! Logo ela?! Por que ela? As mães não entram em pânico. Mães NÃO PODEM entrar em pânico. Mães RESOLVEM!

Ela tentou respirar fundo, mas a cabeça gritava: “Você não pode entrar em pânico! Não pode. Tem muita coisa para resolver.”

Dizem que as mulheres não precisam mais dar conta de tudo e podem pedir ajuda, mas como exatamente isso acontece? Porque na vida real a criança continua chamando, o trabalho continua cobrando, o grupo da escola continua bombando, a casa continua suja, as contas continuam chegando, a rede de apoio nem sempre está disponível. E ainda esperam que ela encare tudo com um sorriso e o cabelo perfeito.

Dias antes do episódio, a mulher foi considerada histérica porque gritou com homens na obra da própria casa ao se desesperar por ver um trabalho tão mal-feito. Ela entregou a obra nas mãos de profissionais e achou que entraria numa casa pronta, mas entregaram a ela vários problemas: o orçamento estourado como se dinheiro brotasse do chão; o pintor que saiu deixando tinta no chão, nas portas, nas paredes, nas esquadrias; as portas, que deveriam ter sido lixadas e envernizadas, ficaram ásperas. O dedo dela ainda não estava cicatrizado da lasca que uma farpa seca, escondida na porta mal-acabada, havia lhe tirado. “Só detalhes” – dizem. Então, ela também tentou resolver isso.

De madrugada ela pesquisava no celular: como evitar que o portão enferruje, como rebocar uma parede com baixo custo, tutoriais de como pintar uma parede, como refazer ou disfarçar o piso da casa…

Todos os dias ela limpa a resina que solta do chão, varre uma poeira que não deveria existir, olha para o piso manchado, descascado, desnivelado, quebrado, e pensa no dinheiro que já foi embora, mas o pior é quando a criança começa a espirrar. A alergia que aparece porque o chão solta areia e o rejunte mal-feito acumula sujeira, poeira e ácaros.

Então ela pesquisa mais, busca vídeos, textos, soluções porque alguém precisa resolver. E, quando ela finalmente perde a paciência com o profissional que fez um serviço mal-feito, ela é a histérica. Ou pior, ela ouve um: “Desculpe, sinto muito!”. Mas a vida segue, o prejuízo continua sendo dela e ela tenta resolver.

A maternidade moderna tem um roteiro estranho: você pode falhar, desde que ninguém perceba.  Pode admitir que está cansada, desde que tudo seja cumprido e esteja no lugar. Você pode ter ajuda, mas, no final, a resolução depende de você.

E, quando o corpo finalmente protesta – com ansiedade, pânico, exaustão – parece que o erro foi seu.

Você não procurou ajuda médica quando seu cabelo começou a cair muito ou sentiu dor no peito ou se percebeu mais nervosa que o comum. Você não fez atividade física e não cuidou da sua alimentação.

Mãezinha, por que você não cuidou de você? Você vem em primeiro lugar!” Sinceramente, a vontade dela era mandar todo mundo tomar no c*! Mas mães não podem falar palavrão.

Ela foi para o hospital, mas recomendou ao marido: a comida, a tarefa das crianças, as aulas de natação, o trabalho de Matemática para terça, o reparo na porta e, de repente, apagou. Após horas dormindo por causa dos remédios, ela acordou e percebeu que talvez o problema não seja ela ter tido uma crise de pânico, mas um sistema inteiro que sobrecarrega as mulheres e depende que mães nunca entrem em pânico.

Depois disso, ela se sentiu envergonhada, tentou esconder e fez o que se espera de alguém que falhou: foi medicada, terapeutizada, respirou fundo, aprendeu técnicas para se acalmar, para se reorganizar e voltar ao eixo.

E seguiu… porque as mensagens continuam chegando, a obra precisa ser concluída, os boletos não se pagam sozinhos, o chão continua soltando poeira e resina, a criança continua espirrando, a vida continua cheia de problemas para ela resolver.

E mães, afinal de contas, não podem entrar em pânico.


Autora: Jan Cordeiro | @JanCordeiroM | Instituto Mães que Escrevem

Escritora, Neuropsicopedagoga | Psicanalista e Ativista pelas Mulheres e Infâncias

Jan Cordeiro – Instituto Mães que Escrevem - Sobrecarga materna

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