Revolução sexual e o sono do bebê

De Mãe para Mãe - Dicas dos especialistas - Psicologia - Relacionamentos - Sono21/12/15 By: Renata Soifer Kraiser
(2) Comentários

 

Queridas,

Nós, mulheres, já conquistamos vários direitos ao longo da história visando igualdade de gêneros. Apesar de muito já ter mudado, feminismo é um assunto ainda muito em pauta e sabemos que temos um caminho pela frente. Nossa querida colunista Renata Soifer Kraiser nos escreveu um texto maravilhoso falando sobre a revolução sexual e o sono do bebê. A Renata também é psicóloga e autora do livro “O sono do meu bebê” e vai nos explicar direitinho como o empoderamento das mamães também influencia o sono das crianças.

Afinal, independentemente de pai ou mãe, todos devem ajudar da mesma maneira, não concordam?

Confiram!

Beijos!

 

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Olá, moms!

Hoje quero falar de um assunto que faz parte do meu dia a dia no consultório, tema de muitas reflexões da geração pós-pílula, que é a revolução sexual e a entrada da mulher no mercado de trabalho.

No período pós-guerra as mulheres timidamente começaram a trabalhar fora de casa. Eram telefonistas, professoras, enfermeiras, secretárias e até operárias. Mulheres que iniciaram um processo longo, difícil, carregado de culpa e ambiguidades.

Trabalhar fora de casa muitas vezes era associado à necessidade. A mulher trabalhava para complementar a renda do companheiro e conseguir se sustentar quando este desaparecia ou mesmo morria, deixando-a sozinha com os filhos pequenos.

Mas as coisas foram mudando. Profissões antes “masculinas” passaram a ser acessíveis também para as mulheres, e a realização pessoal por meio do exercício de uma profissão passou a ser considerado um direito de quem antes só podia encontrar sentido na vida cuidando do lar e dos filhos.

Outros direitos como o divórcio e a possibilidade de se casar novamente também foram conquistados, e as mulheres que antes eram “largadas pelo marido”, viram-se diante da chance de reconstruir suas vidas ao lado de outros homens caso esse fosse seu desejo.

Foram muitas conquistas, mas o trabalho não terminou. A mulher ainda se vê e se cobra como a única ou principal responsável pela casa e os filhos. A mesma mulher que trabalha fora e que muitas vezes ganha menos pelo simples fato de ser mulher é chamada pela escola quando o filho está com febre. É ela que se sente culpada quando algum acidente acontece no berçário.

Mas essas mulheres não fizeram filhos sozinhas! Por que então insistem em se considerar as únicas ou principais responsáveis pelos cuidados da casa e das crianças?

Sabemos que a amamentação é algo prioritariamente feito pela mulher, mas o pai também pode participar dando o leite retirado na “bombinha” quando necessário. A ideia de “empoderamento” da mulher como se fosse uma espécie de super-herói, sobrecarregou-a de tal maneira que ao invés de unir-se a outras mulheres para se ajudar, passaram a competir entre si através de suas filosofias de vida e pensamentos, em um processo estressante e descabido. Seria como se houvesse uma verdade absoluta e universal que servisse para todas as famílias com realidades tão únicas e singulares.

É impressionante como na maioria dos lares o trabalho da mulher dentro de casa ainda é visto como “nada”. Quando o marido chega em casa do trabalho, ele se recusa a colaborar com as tarefas domésticas, pois na cabeça dele a mulher não fez “nada” o dia todo e, portanto, apenas ele tem direito ao descanso. Mesmo que ela trabalhe dentro e fora de casa, o trabalho do homem é sempre considerado prioritário e mais importante e seu descanso precisa ser preservado.

E se a mulher contar com algum tipo de ajuda, como uma babá, aí então ela está lascada de vez, pois seu trabalho passa a ser menos do que nulo. Pergunto ao homem que segue este raciocínio se, ao contratarem um assistente para ajudar a realizar seu trabalho na empresa, ele deveria ter menos direito a férias ou um salário menor, pois teoricamente estaria “fazendo menos”?

É aí que entra a questão do sono do bebê.

Quando alguém me liga pedindo ajuda para trabalhar e entender as causas da insônia do bebê, eu sempre peço para o pai (ou quem faz o papel de pai), participar da consulta. Alguns vêm realmente interessados e participam ativamente do processo, o que contribui imensamente para a compreensão, análise e transformação da questão. Outros vêm, mas ficam ausentes olhando o celular ou alheios ao que é dito. E tem os que nem querem vir, pois acham que esse não é um assunto que lhes caiba, afinal, o papel deles como pai se resume a pagar contas. Ou nem isso.

Para que o pai participe da educação e dos cuidados com os filhos, antes de tudo, a mãe precisa entender que não vai perder “poder” nem ser menos mãe, muito menos incompetente ao abrir esse espaço para a entrada do pai. Há uma dificuldade também das mulheres em aceitar o jeito como os maridos lidam com os bebês. Elas acham que o pai deve ser uma réplica perfeita delas, mas essa ideia é um grande equívoco. Pai não tem que ser como a mãe. Pai tem que ser como ele é e fazer do jeito dele, pois é outra pessoa, outra referência e outro papel. O bebê vai entender e aprender a lidar com essa pessoa diferente.

Quando a mãe trabalha como mãe ou como mãe e profissional 24 horas por dia ininterruptamente, ela entra em um processo de esgotamento muito cruel. Quanto mais exausta de seu trabalho, mais difícil se torna acordar a noite e lidar com o bebê que chora. Nessas condições, é quase irresistível procurar fazer aquilo que ela acredita ser a vontade do bebê, qualquer coisa, na esperança que ele volte a dormir e dê a ela algumas horas de sono a mais.

O que a mãe não sabe é que quanto mais ela induzir o sono de seu filho, mais ele vai requisitar a presença dela e do indutor para conseguir dormir. Temos aí o início de um ciclo vicioso terrível, onde a mãe torna-se “escrava” do filho em troca de um pouquinho de sono.

Você pode achar que esse trabalho era feito com alegria e satisfação por todas as mães da humanidade e que você é egoísta e má por querer descansar. Engano seu. No passado, as casas eram maiores e mais pessoas viviam juntas, então era normal a mulher contar com o apoio da mãe, da sogra, da irmã mais nova ou da tia que não se casou ou ficou viúva. As mulheres se reuniam e ajudavam umas às outras. Hoje vivemos em casas menores, em núcleos menores, muitas vezes distante da família e dos amigos o que faz com que a sobrecarga seja muito maior.

Por isso precisamos terminar a revolução sexual. Abrimos o caminho para o mercado de trabalho, mas esquecemos de trazer o homem para dentro de casa, colaborando e participando ativamente das tarefas que são dele também, como arrumar a casa, lavar as roupas, fazer compras, levar, buscar, e dar afeto para as crianças. Se essas tarefas forem compartilhadas, ninguém fica sobrecarregado, ambos podem descansar e desfrutar da companhia dos filhos, conseguindo ser firmes e dizer “não” quando isso é necessário, educando não apenas o sono, mas para a vida.

Um grande abraço,

Renata

 

Renata Soifer Kraiser é psicóloga e Mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Autora do livro “O sono do meu bebê”, ed.CMS, fruto de seu mestrado sobre este tema.

Para conhecerem melhor o trabalho da Renata, acessem: www.terapeuta.psc.br.

Telefone: 11-3031-4043

 

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2 Comentários:Revolução sexual e o sono do bebê
  1. Avatar
    Julia

    Adorei!

  2. Avatar
    Sil

    Texto muito bom!

    E essas coisas parecem óbvias, mas continuam sendo ignoradas em grande escala!

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