Relato de Mãe: 5h20 da manhã – quando percebi que meu cansaço também era o dele

Relato de Mãe: 5h20 da manhã – quando percebi que meu cansaço também era o dele

Ele saiu do quarto arrastando o cobertor, de olhos fechados, procurando o queijo na mesa. Naquela manhã de sexta, ela entendeu o que a exaustão realmente significa. Um relato de mães sobre a exaustão materna.

Mãe com filho no colo – exaustão materna

Tem manhãs em que a exaustão materna fala mais alto que qualquer alarme. Café feito, vitamina preparada, mochila arrumada – tudo no automático.

Mas às 5h20 de uma sexta-feira comum, uma cena simples parou tudo: o filho chegou à mesa enrolado no cobertor, de olhos fechados, procurando o queijo com as mãos.

Nesse relato, a escritora e mãe solo Bibianne Terra, do Instituto Mães que Escrevem, transforma esse momento cotidiano numa reflexão que vai direto ao coração.

Porque no meio do cansaço, dos horários e da correria, existe algo que cresce todo dia e sustenta tudo. Leia e respira.


Hoje é sexta-feira. Enfim, sextou. Trabalhei a semana toda. Cansativa. Exaustiva. Mas hoje, quando o despertador tocou, a única coisa que eu queria era continuar na cama por mais alguns minutos. Talvez mais meia hora. Talvez até o mundo lá fora resolvesse se virar sem mim.

Mas as responsabilidades chamam. E quando elas chamam, não tem jeito. Afinal, vida de adulto é isso. Ser mãe, trabalhar, cuidar, pagar…é isso.

Levantei. Fiz o café. Preparei a vitamina do meu filho. Arrumei a mesa. O despertador toca novamente: 5h20.

Fui até o quarto acordar o pequeno. Ele precisa ir para a escola para que eu possa trabalhar. Essa é a engrenagem da nossa vida. Uma rotina que se encaixa, às vezes meio torta, mas que precisa continuar girando.

Foi nesse momento que algo me atravessou. Que bateu tão fundo. Resolvi até registrar no celular, porque, à primeira vista, parecia apenas uma cena fofa. Coisa de criança.

Ele saiu do quarto arrastando um cobertor. Veio devagar, ainda meio preso ao sono. Sentou-se à mesa e se enrolou no cobertor como quem tenta segurar um pouco mais o conforto da cama.

Os olhos continuavam fechados. Com as mãos, tateavam a mesa em busca do queijinho e da garrafa de vitamina. Encontrou. E ficou ali. De olhos fechados, mastigando devagar cada pequeno pedaço de queijo, tomando um gole de vitamina de tempos em tempos.

Não era manha. Não era preguiça. Era cansaço. Crianças também cansam. Naquele instante eu percebi algo que doeu: como a minha rotina exaustiva também se reflete na vida dele.

A gente costuma pensar que o peso está só nos nossos ombros. No trabalho, nas contas, nas preocupações que não acabam nunca. Mas, de alguma forma, esse peso também atravessa os pequenos.

Preparei o restante da manhã no automático. Organizei a mochila, ajeitei o uniforme, dei os lembretes de sempre. Coloquei-o na van escolar e segui para o ponto de ônibus.

13 – Circular. No mesmo horário: 06:15. Sentei. E foi ali, no silêncio do trajeto, que a cena voltou. Ele estava sentado à mesa. Enrolado no cobertor. De olhos fechados. Com suas pequenas mãos procurando o queijo.

Fiquei remoendo aquilo. Me culpei. Me ataquei e me cobrei. Sim, ser mãe é difícil. Ser mãe solo, muitas vezes, é cruel. E há coisas nessa experiência que só quem vive consegue entender.

Existe uma culpa silenciosa que acompanha muitas de nós todos os dias. A culpa por trabalhar fora. A culpa por deixar os filhos na escola, na van, na creche. E a culpa por dividir o tempo entre sobreviver e estar presente.

Só mães sabem o peso e a culpa que carregam por trabalharem fora e abdicarem de um tempo precioso ao lado dos filhos. A culpa por fazê-los acordar cedo demais. Por apressar a infância com despertadores e horários.

Às vezes sentimos como se estivéssemos roubando pequenos pedaços da infância deles. Minutos de sono. Manhãs preguiçosas. A possibilidade de acordar devagar.

E no meio disso tudo, seguimos. Seguimos porque precisamos. Seguimos porque existe amor, mesmo quando o corpo está cansado e a cabeça cheia de contas, prazos e preocupações.

E seguimos porque sabemos que, de algum jeito, estamos tentando fazer o melhor possível com o que temos.

Mas existem dias em que a culpa aparece mais forte. Dias em que uma cena simples – um menino de olhos fechados comendo queijo na mesa do café – fica martelando na cabeça da gente o dia todo. Uma cena que me deixou de olhos marejados e com um nó na garganta, dessas que ficam atravessadas na gente.

Dias em que dá vontade de pausar o mundo por alguns minutos. Só para ficar mais um pouco ali. Recebendo aqueles beijos molhados que as crianças dão sem economia. Beijos que nos curam nos dias difíceis. Beijos que lembram que, mesmo no meio da correria, do cansaço e das culpas que inventamos para nós mesmas, existe algo que ainda nos sustenta: o amor que continua crescendo todos os dias, até nas manhãs que começam às 5h20.


Autora: Bibianne Terra | @BibianneTerra | Instituto Mães que Escrevem

Mãe Atípica, Professora, Escritora e Semifinalista Prêmio LOBA 2025

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