O que fazer quando a criança diz “eu te odeio” – por Carla Poppa

De Mãe para Mãe - Dicas dos especialistas05/08/19 By: Carla Poppa
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Oie, moms!

Como vocês estão?

Muitas vezes, vocês nos mandam perguntas sobre o temperamento dos pequenos – as vezes em que eles ficam muito irritados, discutem ou fazem birra. Por falar nisso, vocês já conferiram o post sobre como acalmar as crianças no momento da birra? Vale a pena dar uma olhada!

Pensando nessa dúvida, que é super comum entre as mães, pedimos para a nossa querida colunista e psicóloga, Carla Poppa, escrever sobre um momento que aflige muitos pais: quando os pequenos falam “eu te odeio”.

Ela fez um post bem explicado e esclarecedor sobre o assunto. Confiram!


 

O que fazer quando a criança diz “eu te odeio”?

O que fazer quando a criança diz “eu te odeio” - por Carla Poppa

 

Qualquer criança, em uma discussão mais acalorada, pode sentir raiva dos pais e acabar dizendo que os odeia. Em muitas situações, quando isso acontece, tanto a criança quanto os pais percebem que exageraram, eles se desculpam e a situação é esquecida. Porém, existem casos em que as discussões nas quais a criança chega a dizer para os pais que os odeia se tornam frequentes. Nessas situações, é comum que os pais sejam afetados de forma cada vez mais intensa. Alguns ficam muito magoados, enquanto outros podem ficar extremamente irritados. Se a emoção toma conta, é possível que os pais reajam de foram automática. Ou mostrando que ficaram muito ofendidos, “fechando a cara” para a criança durante o resto do dia, por exemplo. Ou ainda, respondendo de forma agressiva e dando início a um “bate boca”.

O problema dessas reações automáticas, desencadeadas por emoções intensas, é que não permitem que os pais possam compreender o sentido dessa fala da criança e, sem essa compreensão, não é possível ensiná-la a se expressar de uma forma diferente. Por isso, nesse texto, pensei em explicar algumas possíveis razões que podem levar a criança a dizer, com frequência, que odeia seus pais e, assim, tonar mais fácil a definição do que pode ser feito nessas situações.

 

Essa pode ser uma reação da criança quando ela sente que não é escutada

Todas as pessoas para se sentirem seguras numa relação têm a necessidade de poder se expressar e de serem escutadas. Com as crianças, essa necessidade não é diferente. No entanto, muitos pais acreditam que ouvir a necessidade da criança significa obrigatoriamente atendê-la e que isso pode tornar a criança mimada. Por isso, é comum que tomem muitas decisões, como decidir um novo curso que a criança irá fazer, ou mudá-la de escola, por exemplo, sem se preocupar em contar para a criança as mudanças que ela irá enfrentar. Mesmo que a decisão já esteja tomada, é importante compartilhar a decisão com a criança. Assim, ela encontra um sentido para o que vai enfrentar e, além disso, encontra também a abertura necessária para compartilhar as sensações que essa experiência pode despertar. Do contrário, sem diálogo, é possível que a criança não sinta que os seus sentimentos são incluídos nas relações familiares. Nesse contexto, a raiva que ela expressa quando diz que odeia os pais pode representar uma maneira de “obrigá-los” a identificarem o que ela esta sentindo, fazendo com que eles sintam a mesma raiva, tristeza e frustração que a criança sente há algum tempo.

 

Dizer “eu te odeio” pode ser uma maneira de comunicar um sofrimento

De modo semelhante ao que acontece no exemplo anterior, quando a criança enfrenta uma situação que lhe provoca sofrimento, é possível que ela não consiga verbalizar o que sente e, nesses casos, provocar as mesmas sensações nos seus pais, dizendo que os odeia, pode ser a maneira de comunicar a sua experiência. Por exemplo, se a criança brigou com os amigos na escola e não tem a habilidade de refletir sobre como os acontecimentos lhe afetam, nem o hábito de buscar alguém para lhe orientar a como agir nos momentos em que se sente mal; a raiva e a tristeza que sente quando encontra com esses amigos dificilmente será superada. Assim, a criança permanece em constante contato com essas sensações e uma simples discussão em casa pode ser o suficiente para que ela fique muito nervosa e reaja de forma agressiva dizendo que odeia seus pais. Desse modo, os pais são afetados pelas mesmas sensações que a criança está vivenciando há tempos e, se puderem refletir e perguntar para o seu filho sobre os acontecimentos que ele vem enfrentando, é possível que consigam transformar esse episódio de conflito em uma experiência na qual o sofrimento da criança encontrou o apoio necessário para ser comunicado.

 

Pode ser uma maneira de se relacionar que se estabeleceu com a criança

Existem situações também em que a agressividade se torna uma maneira que a criança assimila de se relacionar. Quando a postura de autoritarismo, ou as falas em um tom agressivo fazem parte da relação com a criança de forma constante, é possível que ela assuma uma posição de submissão na relação com os pais. E, assim, quase como um movimento de compensação em situações inesperadas, é possível que ela se comporte de forma oposta, assumindo uma postura agressiva e autoritária não só na relação com os pais, como com os amigos também.

 

Por isso, quando a criança diz frases nas quais ataca de forma intensa seus pais, como quando diz que os odeia e esse comportamento não é parte de uma discussão isolada, mas de um conflito recorrente na família, é preciso ficar atento. Ou para a maneira como se relaciona com a criança, ou para ajudar a criança a “dar voz”  para uma experiência ou sofrimento que possivelmente ela não consegue comunicar de outra forma!


 

Carla C Poppa é doutora em desenvolvimento e psicoterapia infantil pela PUC-SP, professora do curso de especialização em Gestalt Terapia e de cursos de psicoterapia de crianças no Instituto Sedes Sapientiae. Também realiza supervisões e coordena grupos de estudos.

Atende em seu consultório, em Higienópolis, crianças, adolescentes e adultos, onde também orienta pais em sessões individuais ou em grupo. Para falar com ela escrevam para: [email protected] ou acessem o blog: www.carlapoppa.blogspot.com.br

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