Entendendo o medo que as crianças sentem na hora de dormir – por Carla Poppa

De Mãe para Mãe - Dicas dos especialistas13/08/14 By: Carla Poppa
(2) Comentários

 

Olá, moms,

Tudo bem?

O post de hoje foi escrito exclusivamente para o Just Real Moms pela nossa colunista psicóloga, Carla Poppa.

Ela escreveu um texto muito interessante sobre o medo que algumas crianças sentem na hora de  dormir, um assunto presente na maioria das casas com crianças pequenas.

Vale a pena a leitura!

 

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Entendendo o medo que as crianças sentem na hora de dormir e como saber quando procurar ajuda

Muitas crianças entre mais ou menos 3 e 5 anos de idade enfrentam alguma dificuldade na hora de dormir, seja porque não conseguem adormecer sozinhas, ou porque quando acordam no meio da noite não conseguem voltar a dormir e vão direto para a cama dos pais. Esse contato com o medo de maneira mais intensa é bastante comum nessa faixa etária e, como durante o dia as crianças estão em movimento, distraídas com as atividades que realizam, o medo que sentem tende a ficar em segundo plano. Porém, na hora de dormir, com o repouso, elas ficam mais em contato com as próprias sensações. Por esse motivo, o medo fica mais evidente e costuma ser projetado no escuro, nos monstros ou no receio de ficarem sozinhas. Mas do que as crianças nessa idade sentem medo?

É claro que dependendo da história de vida de cada criança e das experiências que ela teve, o sentido desse sentimento pode variar, mas existe algo em comum na experiência com o medo das crianças. Nessa idade, as crianças geralmente já entraram na escola e convivem com mais pessoas. Elas também já conseguem expressar seus pensamentos, sentimentos e opiniões nessas novas relações e em casa com seus pais e irmãos. Por isso, nessa faixa etária, as crianças conseguem e costumam questionar não só os pais, como também os professores e os amigos para tentar entender melhor uma regra, uma obrigação ou para fazer valer a sua vontade. Esse contexto leva a criança a experimentar com frequência uma sensação de insegurança porque ela ainda está tentando entender qual a reação que as suas falas e atitudes provocam nas outras pessoas. Ou seja, elas se colocam com mais frequência em situações de confronto e ficam com receio das possíveis consequências das suas atitudes.

Esse receio nem sempre é percebido com clareza pelas crianças. Dificilmente elas conseguem associar o desconforto que sentem com o fato de terem falado de maneira mais firme com os amigos durante uma brincadeira com a intenção de fazer com que sua ideia seja levada em consideração, por exemplo. O receio de não saber se os amigos ficaram bravos com ela, permanece incomodando e, de noite quando ela não está mais em movimento, o incômodo não só dessa situação, mas de outras semelhantes, pode vir à tona. Por isso, é importante ser acolhedor com o medo que as crianças expressam de noite, já que não se trata de manha, mas de uma sensação real de insegurança.

Nesses momentos, a criança precisa do apoio do adulto para expressar o medo que sente e alcançar uma sensação de bem-estar que lhe permita repousar. Além disso, não só de noite, mas sempre que possível, é importante conversar as crianças. Ao narrar os acontecimentos do dia para uma pessoa, elas podem começar a entrar em contato com o que sentiram nas situações de confronto com os amigos, com os irmãos, com o professor… E com o tempo, conforme elas percebem que suas atitudes são bem recebidas pelos outros e começam a se familiarizar com essa sensação e a desenvolver estratégias para lidar com as inseguranças que surgem no dia a dia, o medo na hora de dormir tende a ser amenizado.

 

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Quando o medo para dormir exige uma atenção especial

Porém, algumas crianças mais velhas com 7, 8 anos, às vezes podem continuar com dificuldade para adormecer sozinhas. E também é possível que o medo que as crianças mais novas sentem à noite fique mais intenso, o que faz com que passem a dormir todas as noites na cama dos pais, ou com que acordem muito assustadas com frequência, com palpitações e tremores. Quando o medo para dormir se torna mais intenso é possível que esse sentimento esteja presente também em outros momentos do dia e a criança apresente dificuldade de ficar sozinha em um ambiente da casa, ou de brincar sozinha, ou ainda evite situações mais desafiadoras como uma apresentação na escola, ou sinta medo de maneira mais intensa de um animal ou de uma situação especifica.

Essas situações precisam de mais atenção porque acabam limitando e influenciando as relações das crianças e como consequência, o seu desenvolvimento. Uma criança que sente muito medo de cachorros, por exemplo, pode deixar de ir à casa de um amigo que tenha esse animal, o que a priva de momentos de diversão. A criança que não consegue dormir sozinha ou permanecer em seu quarto para brincar sozinha sofre não só pelo medo que sente, mas também por se sentir dependente, o que pode começar a influenciar na sua autoestima.

É possível que esses comportamentos tenham um sentido e para compreendê-lo é preciso olhar para a história de vida da criança. Em algumas situações, as crianças podem ser levadas a desenvolver um comportamento mais independente antes que estejam preparadas para agir dessa maneira, porque nasceu o irmão mais novo, por exemplo. Nesses casos, a criança tenta corresponder às expectativas da família o quanto puder, mas em algum momento a sensação de desamparo que permaneceu com ela pode vir à tona por meio desses comportamentos. Em outras situações, quando os pais reagem com frequência de maneira desproporcional diante dos “erros” que a criança comete ou diante das suas atitudes “desobedientes” é possível que com o tempo, a criança passe a ter medo de errar para não ter que enfrentar a reação severa (o desprezo, ou gritos e castigos exagerados) dos seus pais. Nessas situações, a criança permanece em alerta, em contato com o medo. Como o seu “copo do medo” já está cheio, qualquer situação que provoque o contato com esse sentimento, como uma apresentação na escola, por exemplo, pode fazer o “copo transbordar”. Por esse motivo, a criança passa a evitar essas situações.

Assim, as crianças muitas vezes expressam a insegurança que sentem diante das inúmeras experiências novas e desafiadoras que enfrentam no dia a dia na hora de dormir. Conforme elas se familiarizam com essa sensação e aprendem que as reações dos outros diante das suas atitudes são, na maior parte das vezes positivas, essa sensação tende a se amenizar e a criança assume um crescente controle do medo. Porém, quando o medo é recorrente e intenso ao ponto de influenciar na qualidade das relações e nas experiências das crianças, é importante parar para refletir, conversar com pessoas próximas ou procurar a ajuda de um psicoterapeuta para tentar entender o que na história de vida da criança pode ter feito com que ela assumisse uma postura independente antes da hora ou assimilado o medo de errar, entre outras possibilidades. Ao identificar esses fatores é possível pensar quais mudanças precisam ser feitas na relação com a criança para que ela possa receber o apoio necessário para lidar com esse sentimento.

 

Carla C. Poppa é psicóloga formada pela PUC-SP, fez especialização em Gestalt Terapia pelo Instituto Sedes Sapientae. É mestre e doutoranda em desenvolvimento infantil na PUC-SP.

Atende em seu consultório –  na Rua Dr. Veiga Filho, 350, em Higienópolis – crianças, adolescentes e adultos, onde também orienta pais em sessões individuais ou em grupo.

Para falar com ela escrevam para [email protected] ou acessem o blog www.carlapoppa.blogspot.com.br.

 

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2 Comentários:Entendendo o medo que as crianças sentem na hora de dormir – por Carla Poppa
  1. Avatar
    Raquel Lyra

    Adorei a matéria! Tenho um filho de 9 anos, e desde pequeno ele sente muito medo na hora de dormir, ele dorme na cama dele por no máximo 2 ou 3 horas, e depois vai para minha cama. No inicio achei que ele tivesse medo do escuro, mas mesmo deixando o abajour ligado ele não dorme sozinho de jeito nenhum, ele sempre acorda e vai para nossa cama. Certa vez tentamos chamar sua atenção, mandando que ele voltasse para sua cama, e ele chorou bastante e ficou sentado na cama dele, acordado a noite inteira. Ele é uma criança super inteligente e comunicativa, tem bastante amigos, é super saudável, não consigo entender de onde vem todo esse medo. Minha mãe me fala que quando eu era pequena, era muito medrosa também, será que é genético??!!

  2. Avatar
    Rosangela

    Meu filho de dois anos sempre dormiu na caminha dele sem problema.
    Teve uma noite que ele acordou com pesadelo chorando e gritando. Depois desse dia ele tem dificuldade de dormir a noite. Ele tem muito medo quando vai dormir. Ele so dormi abracado comigo e o pai dele. Eu estou muito preocupada. Nao sei o que fazer.

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