As verdades inconvenientes do desenvolvimento infantil – por Andrea Werner Bonoli

Cuidados especiais - De Mãe para Mãe - Desenvolvimento - Saúde da Criança05/11/19 By: Renata Pires
(4) Comentários

 

Olá!

No post de hoje abordaremos um tema muito importante e cada vez mais presente: o autismo. Falaremos mais especificamente sobre pais que não querem enxergar que algo com seu filho não está dentro da “normalidade”.

Para escrever este post com propriedade, convidei a Andrea, mãe do Theo (de 7 anos), que é autista. A Andrea é responsável por um dos blogs mais bacanas e completos sobre o assunto, o Lagarta Vira Pupa (para quem ainda não conhece, vale a pena acessar)!

Conheçam a história dela e alguns sinais de que algo pode estar acontecendo!

Espero que gostem!

Mil Bjsss

 

Inconvenientes do desenvolvimento infantil - Just Real Moms

 

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Pais de primeira viagem costumam ser meio perdidos, e eu não era exceção. Tinha lido alguns livros durante a gravidez, mas tudo mais focado na gravidez em si do que no bebê que viria.

Desta forma, eu praticamente não tinha informações sobre como deveria ser o desenvolvimento do Theo. Acabei deixando tudo para quem, na minha cabeça, sabia disso muito melhor que eu: a pediatra.

E, cada vez que íamos lá, ela fazia alguns testes com ele, algumas perguntas, e nos liberava dizendo que estava tudo bem. Acreditávamos. Afinal, não tínhamos informação para pensar o contrário.

À medida em que o primeiro aninho do Theo se aproximava, ele foi mudando visivelmente. O bebê risonho e brincalhão ficou mais sério, deixou de fazer algumas coisas que fazia corriqueiramente – como bater palminhas e dar tchau – , desenvolveu uma estranha fixação por rodinhas, parecia meio alheio e não olhava quando o chamávamos pelo nome. Eu, do alto da minha falta de informação, achava que era só um caso de “personalidade difícil”.

Lembro-me de uma das consultas com a pediatra nesta época. Ela me perguntou quantas palavras ele estava falando. Eu citei algumas, mas comentei que achava estranho o fato de ele falar “pato”, por exemplo, durante uma semana e, depois, parecia que tinha esquecido aquela palavra. Aí, vinha uma nova. Na minha cabeça, linguagem era como um muro que se construía agrupando tijolinhos. Não fazia sentido colocar um tijolo e tirar outro. Mas ela dizia que estava tudo ok. E eu acreditava.

Theo entrou para a escolinha pouco antes de fazer 2 anos. E, um mês depois, em uma reunião, veio o relatório que mudaria nossas vidas. As professoras apontaram alguns sinais que consideravam “fora da curva” no Theo e nos pediram uma avaliação auditiva e neurológica. Afinal, segundo elas, ele não fazia contato visual, não interagia com as outras crianças, não olhava quando era chamado pelo nome, tinha risos inapropriados, fixação por rodinhas e tendência ao isolamento. E foi ali que, mesmo sem ter quase nenhuma informação a respeito, a palavra “autismo” começou a piscar na minha mente.

Voltamos à pediatra e ela negou, imediatamente, que ele tivesse qualquer coisa relacionada a autismo. Mas tanto eu quanto meu marido, apesar de toda a dor dilacerante, percebemos, finalmente, que o que meu filho tinha não era uma questão de personalidade. Não nos conformamos e continuamos a procurar a verdade.

Theo também foi a um dito “pediatra especialista em desenvolvimento infantil” que tem, inclusive, livros publicados. Ele também garantiu que ali não tinha autismo. Depois disso, resolvemos ir em em busca de quem realmente entendia do assunto: um psiquiatra infantil e um neuropediatra, ambos com muita experiência em transtornos do desenvolvimento. E foi ali que recebemos o diagnóstico oficial.

 

Inconvenientes do desenvolvimento infantil - Just Real Moms

 

Muito choro, muito sofrimento, mas, também, ação imediata: uma semana depois, Theo já estava fazendo as terapias indicadas, e a intervenção precoce é importantíssima no caso do autismo e de outros transtornos do desenvolvimento.

E por que contei isso tudo? Para chegar a alguns pontos muito importantes. O primeiro é que, infelizmente, a maioria dos pediatras ainda não sabe identificar sinais de transtornos do desenvolvimento. E isso inclui os profissionais mais velhos e experientes (como aquele em que levamos o Theo). Nesse cenário, cabe a nós, mães e pais, buscar informações sobre os famosos “marcos do desenvolvimento” e monitorá-los, sempre atentos a algum atraso.

Em caso de dúvidas, devemos confrontar até mesmo algumas verdades inalienáveis da internet, muito propagadas em blogs de maternidade e repetidas à exaustão em grupos maternos.

Quem nunca leu a frase “cada criança tem seu tempo” sendo repetida incansavelmente nesses fóruns sempre que alguma mãe cita algo como  “meu filho tem 2 anos e não fala nada”? Os marcos do desenvolvimento estão lá por uma razão. Foram estudados. Alguma variação pequena pode ocorrer, mas o ideal é que os bebês atinjam cada um por volta de certa idade. Um único sinal, como o atraso de fala, pode não ser nada, mas junto com outros atrasos, necessita ser investigado.

A outra “verdade da internet” é a de que “não devemos comparar nossos filhos com outras crianças”. Sim e não. Uma comparação “com parcimônia e bom senso” pode nos mostrar se nosso filho está destoando muito das outras crianças de sua idade e é, sim, útil.

A última verdade é sobre estar havendo um “excesso de diagnósticos”. Pode acontecer um diagnóstico equivocado ou outro? Sim, mas isso é exceção. Como eu já citei acima, a maioria dos médicos não sabe identificar condições como o autismo ou até um déficit de atenção. Então, se o médico é especialista e levantou um ponto de atenção, melhor investigar direito.

Para terminar, após 5 anos do diagnóstico do Theo e tendo contato com centenas de pais e mães que têm dúvidas sobre o desenvolvimentos dos filhos, percebi o seguinte: eles se dividem entre os que vão atrás de “verdades inconvenientes” ou “mentiras reconfortantes”.

A diretora da escolinha onde o Theo estudava quando teve o diagnóstico veio nos agradecer pela nossa postura ao receber o tal relatório. E por que? Porque é muito comum que, quando os pais recebem esse tipo de notícia, ficam com raiva da escola, das professoras, dizem que a criança não tem nada e a mudam de escola (!!).

Também acontece de pais peregrinarem de médico em médico até acharem aquele que fala que a criança não tem nada. Ou pedem opiniões em grupos maternos só para ouvir que “cada criança tem seu tempo”.

Negação é uma coisa muito triste e tem um efeito nefasto: cada mês de autoengano dos pais é um mês a menos de intervenção precoce para a criança. O cérebro se desenvolve muito até o terceiro ano, e agir ali pode fazer toda a diferença. Theo é autista moderado e não gosto nem de pensar em como ele estaria se não estivesse fazendo terapias desde os 2 aninhos.

Receber um diagnóstico assim machuca, tira o chão, é uma dor como a de um luto. Mas devemos tirar um pouco o olhar de nós mesmos e pensarmos na criança que está ali, dependendo totalmente das decisões que nós vamos tomar a respeito dela. Isso, sim, é o mais importante!

 

Inconvenientes do desenvolvimento infantil - Just Real Moms

 

Sinais de alerta a partir dos 9 meses*:

Bebê de 9 meses:

– Não aguenta seu próprio peso nas pernas (com ajuda)

– Não é capaz de se sentar mesmo com ajuda

– Não balbucia (“mamã”, “baba”, “papá”)

– Não faz brincadeiras que envolvem imitação

– Não olha quando é chamado pelo nome

– Não parece reconhecer pessoas familiares

– Não olha para onde você aponta

– Não passa um brinquedo de uma mão para a outra

 

Bebê de 1 ano de idade:

– Não consegue manter-se de pé com ajuda

– Não procura pelas coisas que ele vê você esconder

– Não diz palavrinhas como “mamãe” ou “papai”

– Não aprende gestos como “dar tchau” ou balançar a cabeça (para “não”)

– Não aponta para as cosias

– Perdeu habilidades que tinha

 

Bebê de 18 meses de idade:

– Não aponta para mostrar as coisas para as pessoas

– Não anda

– Não sabe para que servem coisas que ele já conhece

– Não imita os outros

– Não segue instruções simples (como “pegue o brinquedo”)

– Não adquire novas palavras

– Não fala, pelo menos, 6 palavras (excluindo repetições)

– Não percebe (ou parece não dar importância) quando o pai ou a mãe chegam ou saem

– Perde habilidades que já tinha

 

Bebê de 2 anos idade:

– Não usa frases de duas palavras (por exemplo “dá água”)

– Não sabe o que fazer com coisas comuns como pente, telefone, garfo, colher

– Não imita palavras e ações

– Não segue instruções simples (age como se fosse surdo)

– Não anda de forma estável

– Perde habilidades que já tinha

 

* Fonte: CDC (mais detalhes aqui: http://www.cdc.gov/ncbddd/actearly/milestones/index.html)

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4 Comentários:As verdades inconvenientes do desenvolvimento infantil – por Andrea Werner Bonoli
  1. Avatar
    Angela

    Andrea é um espetáculo!!! Adorei vê-la por aqui!!

    • Avatar
      Cristiana Silva

      Como sempre iluminada!!! Adoro seguir você! Cada dia mais um pouquinho de conhecimento e sensibilidade… Bj

    • Avatar
      Andrea Werner

      Oi, Angela! Obrigada pelo carinho! <3

  2. Avatar
    Tatiana Souza

    Exceltente Texto!
    Obrigada Andrea por compartilhar conosco!

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