A função dos limites no desenvolvimento da criança e a importância da forma como são colocados – por Carla Poppa

De Mãe para Mãe - Dicas dos especialistas07/08/17 By: Carla Poppa
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Olá, meninas!

Como vocês estão?

Hoje, teremos mais um post da nossa querida colunista e psicóloga, Carla Poppa. Aliás, vocês já viram o seu último texto sobre Cuidados com o consumo e o consumismo das crianças? Super interessante!

Nesta segunda, a Carla escreveu um pouco sobre os limites impostos aos pequenos e a importância de como eles são aplicados. Texto muito real e esclarecedor!

Boa leitura!

 


 

A função dos limites no desenvolvimento da criança e a importância da forma como são colocados

A função dos limites no desenvolvimento da criança e a importância da forma como são colocados - por Carla Poppa

 

No dia a dia, os limites aparecem na relação dos pais com seus filhos desde cedo, conforme a criança começa a andar e o seu principal interesse passa a ser o de explorar o ambiente. Nessa fase, os pais precisam repetidas vezes impedir o movimento da criança com a intenção de protegê-la. Ou seja, no dia a dia, o limite costuma ser colocado pelos pais de forma natural e essas experiências são importantes, não só para manter a criança segura, mas também porque os limites exercem diferentes funções no seu desenvolvimento. Quando a criança ouve seus pais dizerem “não” fica muito claro para ela que a vontade dela é diferente da vontade dos seus pais. Por isso, os limites são uma forma de fazer com que a criança entre em contato com a diferença!

A ideia de que as outras pessoas podem sentir e querer coisas diferentes de mim é um recurso que é desenvolvido pela criança ao longo de todas as suas interações desde o seu nascimento, mas é reforçado pelos limites que são colocados pelos pais. A noção da diferença tem inúmeras funções no desenvolvimento, uma delas é de permitir que a criança se ajuste às necessidades dos outros, ou às regras de um ambiente, quando necessário. Além disso, quando a criança ouve um “não” dos seus pais, esse momento também se torna uma oportunidade para desenvolver a sua capacidade de buscar soluções criativas. Por exemplo, uma criança vai com seus pais visitar a casa de amigos da família e enquanto seus pais conversam, ela começa a mexer nos objetos de decoração da casa. Nesse momento, seus pais falam para ela parar de mexer nesses objetos. A partir do limite que é colocado, a criança pode reagir à frustração de forma automática chorando, por exemplo, ou pode buscar uma solução criativa e começar a se entreter com os brinquedos que sua mãe lhe oferece.

Esse exemplo ilustra também que a forma como os limites são colocados e como os pais reagem à frustração do seu filho(a) pode contribuir ou não para que o limite  seja vivido pela criança como um cuidado. E um dos cuidados relacionados à forma como os limites são colocados é tentar ajudar a criança a reagir de forma criativa diante do “não”! Uma mãe ou um pai que pede para o filho(a) parar de mexer nos objetos da casa do amigo, levanta para buscar os brinquedos que trouxe e começa a brincar até que seu filho(a) consiga se entreter sozinho, está ajudando a criança a encontrar uma solução criativa!

Além de ajudar a criança a buscar soluções criativas, outro cuidado importante relacionado à forma como os limites são colocados é tomar cuidado para não reagir à frustração que a criança expressa de forma desproporcional! Quando a criança se sente frustrada, ela pode chorar, ou ser agressiva com os pais, que podem, de forma bastante compreensível, ficar irritados. A irritação é natural e mostra apenas que os pais são humanos. O problema acontece quando a irritação é tão intensa que os pais mudam a qualidade da relação com seu filho por um período de tempo prolongado.

Imagine que você discutiu com sua mãe por um motivo aparentemente sem importância e a partir dessa discussão fica um “clima” estranho e vocês não se falam direito ou não conseguem agir de forma espontânea por algumas semanas. Um adulto provavelmente vai ficar incomodado com essa situação, mas tem autonomia para lidar com esse incômodo. Ele pode se dedicar às suas outras relações, por exemplo. Com uma criança é diferente, se a qualidade da relação com seus pais muda dessa forma por tanto tempo, ela encontra poucas maneiras de sair desse incômodo. Quando o mal-estar na relação se prolonga, é possível que a criança se sinta excluída das relações familiares. Por isso, é importante ficar atento e desenvolver o hábito de refletir sobre a qualidade da relação com os filhos. É a nossa capacidade de reflexão que torna possível identificar quando existe um distanciamento prolongado provocado pela irritação e ressentimento e, a partir daí, agir de forma intencional para se reaproximar da criança e retomar a relação com a mesma qualidade de antes. Caso contrário, o limite deixa de ensinar para a criança sobre as diferenças e a criatividade e pode se tornar uma experiência de exclusão, que provoca muito sofrimento.

Assim, os limites são necessários e importantes para a criança, mas eles só vão ser vividos como um cuidado que ajuda no desenvolvimento da criatividade e da percepção das diferenças, se a criança encontrar apoio para lidar com o “não” de forma criativa e, principalmente, se a qualidade da relação for preservada apesar da irritação que esses momentos de confronto podem provocar.

 


 

Carla C Poppa é doutora em psicologia clínica pela PUC-SP, professora do curso de especialização em Gestalt Terapia e de cursos de psicoterapia de crianças no Instituto Sedes Sapientiae. Atende em seu consultório, crianças, adolescentes e adultos, onde também orienta pais em sessões individuais ou em grupo. Para falar com ela, escrevam para: [email protected] ou acessem o site www.carlapoppa.com.br

 

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