Cuidados com o filho adotivo – por Carla Poppa

De Mãe para Mãe - Dicas dos especialistas - Relacionamentos03/10/17 By: Ana Lú Gerodetti
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Olá, moms!

Tudo bem?

É inegável que um filho adotivo constrói laços iguais aos de um filho biológico com seus pais, mas como o bebê ou a criança já vem com uma história de vida inicial em sua bagagem, é preciso que esse caminho seja trilhado com alguns cuidados.

Hoje, a nossa querida colunista e psicóloga, Carla Poppa, escreveu um texto falando sobre o assunto. De forma delicada, ela explica como é o processo da chegada de um filho adotivo e dá alguns conselhos para que isso aconteça da forma mais harmoniosa possível.

E, por falar na relação entre pais e filhos, vale super a pena conferir também o último texto da Carla em nosso site: A função dos limites no desenvolvimento da criança e a importância da forma como são colocados.

Confiram o novo texto da nossa colunista!

 
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Cuidados com o filho adotivo

Cuidados com o filho adotivo - por Carla Poppa

 

O vínculo que os pais constroem com um filho adotivo pode se tornar tão significativo quanto o vínculo que é construído com um filho biológico. Porém, como no caso da adoção a criança chega na família com uma história de vida que não foi compartilhada com os pais, existem alguns cuidados específicos que podem ajudar na construção do vínculo com a criança.

Quando a criança chega na família, é bem possível que ela já tenha vivido algumas experiências com seus pais biológicos, ou mesmo no abrigo no qual vivia antes da adoção. Nessas interações anteriores, a criança começou a desenvolver a sua maneira de se relacionar. A maneira de se relacionar pode ser expressa de forma sutil, como o tom de voz mais alto do que os pais costumavam utilizar, ou uma forma mais firme de pegar os brinquedos ou objetos, por exemplo. E por mais que esses gestos possam chamar a atenção dos pais, é importante se manter tranquilo e ter em mente que essa maneira de se relacionar muda conforme as interações da criança se modificam e, por isso, não devem ser entendidas como uma característica definitiva. Do contrário, quando os pais entendem que esses gestos indicam que o filho(a) é agressivo(a), por exemplo, é possível que esse olhar se torne presente nas interações que terão com  a criança e assim, essa transformação pode se tornar mais difícil. Nesses casos, como a maneira de se relacionar da criança está impedida de se transformar, mesmo passando o tempo, é possível que a criança sinta que ela é muito diferente dos pais, o que promove uma distância e dificulta a intimidade que é essencial para a construção de um vínculo de confiança entre pais e filhos.

Além de ter consciência de que a criança possivelmente terá uma maneira de se relacionar diferente para que seja possível responder aos seus gestos com tranquilidade, também é importante refletir sobre os sentimentos que a criança desperta. Alguns pais podem sentir pena ou ter a sensação de que estão “salvando” a criança de uma vida difícil. É importante identificar esses sentimentos ou crenças para que eles possam ser questionados e, assim, evitar que se relacione com a criança orientado pela expectativa de que ela sinta gratidão por ter sido adotada. Quando a crença de que a criança foi “salva” pelos pais se mantém presente na relação, é possível que os pais, mesmo sem perceber, acabem colocando a criança em uma posição de devedora, o que pode provocar uma reação de raiva da criança; ou o oposto, a criança pode reprimir a sua espontaneidade e direcionar sua energia pela intenção de agradar os outros.

E ainda, outro cuidado importante é oferecer espaço para a criança perguntar e conversar sobre sua história de vida; sua família de origem e suas experiências anteriores à adoção. Esse espaço aparece na relação na medida em que a criança percebe a segurança e tranquilidade dos pais quando ela faz perguntas sobre a sua história. Com a tranquilidade e segurança que os pais expressam, a criança percebe que pode não só fazer perguntas, mas compartilhar seu sofrimento e seus anseios, o que torna sua experiência mais leve. Se ao contrário, as perguntas que a criança faz sobre a sua história de vida despertam ansiedade, insegurança ou angústia nos pais, o espaço na relação para esse diálogo, deixa de existir e a criança fica isolada, sem encontrar apoio para lidar com as emoções que a sua história de vida lhe despertam, o que, com o tempo, pode tornar seu sofrimento cada vez mais intenso.

Assim, quanto mais as experiências anteriores da criança forem reconhecidas e incluídas na relação com seus pais com tranquilidade e quanto mais os pais se apropriarem dos eu desejo de ter um filho e de construir uma família que foi atendido com a adoção, é bem provável que a relação assuma uma posição horizontal, na qual a criança não será vista como devedora, nem será exigido que expresse gratidão. Com isso, a chegada da criança à família pode ser vivida como um encontro entre os pais e seu filho(a), a partir do qual a mãe, o pai e a criança se transformam e se beneficiam.

 

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Carla C Poppa é doutora em desenvolvimento e psicoterapia infantil pela PUC-SP, professora do curso de especialização em Gestalt Terapia e de cursos de psicoterapia de crianças no Instituto Sedes Sapientiae.

Atende em seu consultório, em Higienópolis, crianças, adolescentes e adultos, onde também orienta pais em sessões individuais ou em grupo. Para falar com ela escrevam para: [email protected] ou acessem: www.carlapoppa.com.br

 

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