Cuidados com o consumo e o consumismo das crianças – por Carla Poppa, psicóloga

De Mãe para Mãe - Dicas dos especialistas04/06/17 By: Carla Poppa
(1) Comentários

 

Oi, meninas,

O post de hoje foi escrito exclusivamente para o Just Real Moms pela psicóloga Carla Poppa, nossa colunista.

Adorei o tema abordado! Confesso que em alguns momentos exagero nos presentes para meus filhos e percebi que tenho que tomar muito cuidado com a importância e valor que esse consumismo pode se tornar para eles.

Vale a pena a leitura!

Beijos

 

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O cuidado com o consumo é a apresentação de critérios de compra claros e consistentes.

Como vivemos em uma sociedade de consumo, as crianças estão imersas em estímulos que as levam a entrar em contato com o desejo de consumir os mais diferentes produtos. Por isso, é muito importante que elas possam contar com o cuidado dos pais para que aprendam a lidar com os desejos que vão experimentar a todo o momento. Nesse contexto, os pais precisam ter clareza de quais são os critérios que norteiam a sua decisão de comprar ou não o produto que a criança pede. Esses critérios são elaborados a partir das crenças, valores e das possibilidades financeiras de cada família. Por exemplo, alguns pais definem que os brinquedos que a criança pede só serão comprados nas datas comemorativas, como Natal, aniversário e dia das crianças. Outros podem preferir reservar um valor mensal para os gastos com lazer, roupas e brinquedos.

 

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Porém, o mais importante é que esses critérios sejam claros tanto para os pais como para a criança e que os pais possam agir de maneira coerente e consistente com o que definem. Isso quer dizer que em algumas ocasiões, as quais serão definidas pelos critérios adotados, os pais precisarão ser firmes e falar “não” para o (a) seu (a) filho (a). Ou negociar para que ele (a) espere para ter o seu desejo atendido. Ou ainda, podem surgir situações nas quais os pais avaliam que é adequado flexibilizar os critérios adotados para comprar o produto que a criança deseja. Como, por exemplo, um material de desenho ou de esporte que pode ajudá-la a enriquecer as suas experiências, ou um presente por uma conquista importante que foi alcançada. Nessas situações, é importante contar para a criança o que motivou essa decisão e ressaltar que se trata de uma exceção. Todos esses são cuidados que ensinam a criança a lidar com o seu desejo de consumir dentro de limites estipulados por critérios, o que favorece que conforme a criança cresça, ela continue se organizado com base em uma estratégia clara e racional e aprenda a lidar com a frustração ou com a experiência de ter que esperar para ter seus desejos atendidos, quando necessário.

No entanto, no dia a dia, muitos pais já adotam práticas semelhantes a essas e mesmo assim observam e se preocupam com seus filhos que parecem cada vez mais ansiosos e insatisfeitos por desejarem sempre um produto novo. Muitas crianças quando ganham o último lançamento do videogame, mal usufruem da sensação de bem-estar de ter o seu desejo atendido e já se sentem ansiosas para ganhar o celular de última geração. Nesses casos, a ansiedade e a insatisfação constante que a criança apresenta são sensações que merecem atenção dos pais, já que podem indicar que existe um sofrimento que está acobertado pelo seu desejo de consumir.

 

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O consumismo pode estar relacionado com uma sensação de inferioridade da criança.

Um dos sofrimentos que pode estar acobertado pela ansiedade que a criança apresenta para consumir novos produtos é a sensação de inferioridade em relação às outras crianças. Quando, por algum motivo, a criança não se sente aceita nas relações familiares, ela pode generalizar essa sensação para as outras relações, inclusive para a suas relações de amizade com as outras crianças. Nesse contexto e levando em consideração que vivemos em uma sociedade de consumo, as crianças podem ser levadas a acreditar pelos estímulos que recebem, que os objetos, as roupas ou os brinquedos que possuem são uma das maneiras de serem aceitas pelo seu grupo familiar ou de amigos.

 

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Em algumas situações é mais fácil identificar o que pode ter provocado esse sofrimento na criança. Os próprios pais, muitas vezes, conseguem reconhecer quando são agressivos, muito rígidos ou exigentes ou até mesmo ausentes da relação com a criança por excesso de trabalho ou por dificuldade de se interessar ou se comunicar dentro do universo infantil. No entanto, existem situações em que os fatores que provocam o sofrimento na criança são menos evidentes e mais sutis. Como por exemplo, quando existe a percepção dos pais de que um filho é mais inteligente, simpático ou carinhoso do que o irmão, e esse filho, por sua vez, acaba agindo de maneira a comprovar e enfatizar a percepção que os pais construíram dele.

Por isso, quando a criança começa a desejar brinquedos, aparelhos eletrônicos ou roupas com a esperança de que possa vir a se relacionar com os amigos a partir de uma posição de igualdade, os pais passam a ter que cuidar do comportamento consumista da criança de duas maneiras diferentes: mantendo-se firme nos critérios que definem a compra e concentrando os seus esforços para construir uma relação mais próxima com a criança.  Para tanto, é importante deixar de dar tanta importância aos comportamentos da criança que incomodam e desencadeiam críticas e tentar descobrir interesses em comum que possam ser compartilhados. A partir dessas experiências, conforme a criança percebe no olhar, nos gestos e na fala dos seus pais e nas suas próprias sensações que eles estão se divertindo juntos, ela entende que a sua espontaneidade é aceita pelo outro e, desse modo, a sua verdadeira necessidade é atendida.

 

O consumismo pode estar relacionado com uma dificuldade que a criança tem de perceber seus sentimentos.

Existe ainda a possibilidade da ansiedade da criança pelo consumo estar acobertando a dificuldade da criança de nomear e enfrentar seus sentimentos. Por exemplo, pais em processo de separação, ou um parente doente podem ser situações que provocam na criança um sentimento intenso de medo, que ela ainda não consegue nomear ou identificar a relação entre o que esta acontecendo ao seu redor e o que está sentindo. Assim, a criança permanece em contato com uma sensação intensa sem saber o que pode fazer para conseguir algum alívio. Nesse contexto, a criança permanece agitada e ansiosa e o desejo de consumir principalmente os aparelhos eletrônicos ou videogames pode ser uma busca por um alívio temporário ou maneira de anestesiar essa sensação incomoda.

De modo semelhante à situação anterior, o cuidado com o comportamento consumista da criança nesses casos precisa contemplar duas dimensões diferentes. É preciso levar em consideração os critérios de compra que foram definidos e também incluir a criança, sempre que possível, nos acontecimentos, oferecendo informações que possam acalmá-las e espaço para que expressem seus medos e fantasias.

 

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Assim como acontece com os adultos, o que leva as crianças do consumo responsável para o consumismo não é apenas a ausência de critérios objetivos e racionais, mas também as emoções, os sentimentos e as sensações que muitas vezes são deslocadas para o desejo de comprar pelo alívio rápido, pela busca por aceitação e pertencimento e pela anestesia que essas experiências conseguem provocar nas nossas reais necessidades e sofrimentos. Se para os adultos esse deslocamento já é capaz de provocar novos sofrimentos, com as crianças é preciso ainda mais atenção, uma vez que a sua personalidade esta em formação e o consumismo, se não for cuidado, pode passar a ser um recurso que ela irá recorrer sempre que se deparar com uma situação difícil ou desafiadora ao longo da vida.

 

Carla C. Poppa

CRP: 06/69989

Psicóloga clínica

http://carlapoppa.blogspot.com

 

 

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1 Comentário:Cuidados com o consumo e o consumismo das crianças – por Carla Poppa, psicóloga
  1. Dea

    Realmente é muito importante nos atentarmos p/ o consumismo infantil! Não é tarefa fácil, mas devemos nos esforçar p/ não criarmos pequenos consumistas, que nunca estarão satisfeitos diante de tanta oferta de produtos! Parabéns pelos posts sempre tão interessantes!! Beijão

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