Creche ou casa? – por Daniela Nogueira

De Mãe para Mãe - Dicas dos especialistas - Educação20/02/18 By: Ana Lú Gerodetti
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Olá, moms!

Tudo bem?

Há algum tempo, a nossa colunista e psicóloga, Daniela Nogueira, fez uma série de posts falando sobre a agressividade no contexto escolar. Como muitas leitoras adoraram, hoje trouxemos um texto dela que fala sobre a dúvida: casa ou creche?

Além de psicóloga, a Daniela é a idealizadora do projeto Pais em Ação, que apoia pais e mães na educação dos filhos oferecendo aconselhamento personalizado e domiciliar com um olhar de profundo respeito pela criança.

Confiram!

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Creche ou casa? 

 

Uma das maiores dúvidas que recebo dos pais que aconselho é: “o que é melhor, deixar em casa com a babá ou por cedo na escolinha?” Logo de cara já quero dizer que eu não tenho as respostas! Cada família tem uma necessidade, uma prioridade e porque não, uma angústia. Meu trabalho é ajudar nas reflexões e nas informações, seria muita pretensão dizer o que cada pai deve fazer. Vou citar exemplos do que tenho ouvido ao longo dos anos: “Prefiro mil vezes deixar na escola do que casa com babá sem fazer nadar”, “Sabe como é, pelo menos na escola está aprendendo alguma coisa e interagindo com outros”, “Mas o bebê não vai enjoar de brincar com as mesmas coisas em casa e ir na mesma pracinha/play todos dias?”, “Socializar é muito importante não dá para fazer isso fora da creche pois ele não tem primos”, “Não sei mais o que inventar para entreter meu bebê, pelo menos na escola tem novidades o tempo todo”, “Melhor na creche do que com babá vendo TV” e por aí vai…

Quero adressar cada uma dessas preocupações mas para isso é preciso conhecer e entender uma pessoa: O BEBÊ!

O bebê não é uma versão minúscula de um adulto, portanto a lógica e a agenda adulta não se encaixam em nada aqui. Um nenê e um toddler estão descobrindo (do verbo: isso é um processo que levará anos) o mundo e não há NADA de entediante nisso!

Como disse Alison Gopnik num TEDtalk, ser um bebê é como estar apaixonado, em Paris pela 1ª vez, logo após ter tomado 3 expressos duplos! Pensem nisso e jamais se preocuparão se a criança pequena está entediada!

Cada despertar de manhã é uma nova chance de continuar a entender a vida, a casa, os objetos, as pessoas, etc. Cada dia ela elabora e adiciona um punhado de informações e conhecimento que vai adquirindo. Alison completa dizendo que é por isso que às vezes fica-se acordado e chorando às 3AM, pois é muita informação e muita novidade. Então acalmem-se, pois até os 3 anos o mundo pode ser apresentado em PEQUENAS DOSES.

Daí podemos ampliar nossa reflexão falando sobre a importância da rotina. Se um nenê já é fascinado com tudo o que aparece, imagina se a cada dia surgissem mais e mais coisas? Mais novidades, mais brinquedos, mais cores primárias, mais massinha, mais giz de cera, mais músicas, mais, mais, mais! Que cansativo! Não vou nem mencionar neste texto o mal que faz a TV e todos os outros tipos de tela nessa fase. Como o seu bebê vai processar tanta informação se seu cérebro ainda não está nem perto de estar todo formado e este órgão já tem o seu trabalho natural a fazer?

É através da rotina e do ambiente tranquilo e emocionalmente acolhedor que um bebê vai dar seus primeiros passos rumo à criatividade. Só vivendo a “mesmice” ele verdadeiramente dará conta da novidade.

O novo só vem a partir do que já é conhecido e para um bebê isso leva TEMPO. São os adultos que se enjoam de fazer sempre a mesma coisa! Quem aí o filho quer ouvir mil vezes a mesma história? E quantos aos brinquedos, eles não estão aqui para estimular (mais ainda? Lembrem-se dos 3 expressos duplos hein!) seu filho mas sim para matar a CURIOSIDADE dele. O nenê já nasce curioso e minha sugestão é: observe o interesse do seu bebê, pois não é o mesmo de um adulto.

Sobre a estar “aprendendo” algo e até mesmo o “fazendo algo” que eu tanto escuto…nós vivemos em tempos que estar ocupado é sinal de status e estamos enfiando isso goela abaixo dos nenês e toddlers. Um bebê olhando fixamente para sua própria mão está “fazendo” um trabalho enorme! Um toddler enchendo e esvaziando uma bacia de legos está trabalhando!

É a motricidade livre deles é que lhes permitirá um desenvolvimento intelectual normal. Agnès Szanto (psicóloga que atuou muito tempo como consultora de escolas de educação infantil) explicitou isso muito bem no último simpósio internacional sobre a 1ª infância que aconteceu em São Paulo.

Um pequeno que fala “oi” para o porteiro, para a cozinheira, para os conhecidos da roda íntima de seus pais já está socializando, outra grande preocupação dos pais. Quem já observou um grupo de vários bebês juntos sabe que eles podem até se ver, se tocar ou rir um para o outro, mas socializar como os pais imaginam ainda não acontece. Primeiro seu filho precisa descobrir a si mesmo para depois descobrir os outros – o nenê nasce na maior simbiose com a mãe e é com tempo e vivência que ele descobre que os dois não são um só, imagina então lidar com mais 10 outros indivíduos? Calma, há tempo para tudo.

Então, seja em casa ou na creche o que importa é quem vai cuidar do seu bebê, se ele terá tempo livre, se ele poderá ter sua motricidade livre (alô inteligência!), se o ambiente é tranquilo e não cheio de tranqueiras, excesso de brinquedos ou excesso de cores. Quem prefere tudo coloridão são os adultos, pelos menos alguns deles, mas não acredito que iriam gostar de trabalhar num escritório lotado de cores primárias…

Não é para ser sem cor, mas não precisa estar em todos os lugares, móveis e objetos pois cor é estímulo visual. O ruim são os extremos! O importante é se o bebê será respeitado como indivíduo, com suas singularidades e gostos, se as refeições serão dadas de forma calma, sem forçar, sem dizer “parabéns comeu tudo” ou “só mais uma colher vai”, se a troca de roupa e fralda será respeitosa. Se ele não vai ser obrigado a “fazer” coisas, pinturas, rodinhas, etc.

De novo queridos pais, não caiam nos extremos: não há nada errado com estas atividades, mas tudo tem seu tempo.

Há coisas mais importantes para um bebê “fazer” e o segredo está no interesse dele, na brincadeira livre, no currículo ZERO e nos cuidados primordiais, sejam eles na creche, na escolinha ou em casa. Procurem por este lugar, demandem este nível de child care, com cuidadores treinados para olhar o bebê como ele é e então, deixem que ele faça seu próprio trabalho!

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Por Daniela Nogueira

Especializada na abordagem Pikler-Lóczy em Paris, França, está envolvida no universo infantil há mais de 15 anos com experiências em co-educação nos EUA, trabalho terapêutico em instituições e abrigos para crianças e atuação como professora na educação infantil em escolas particulares de São Paulo e Rio de Janeiro.

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