Bebê e currículo – por Daniela Nogueira

De Mãe para Mãe - Dicas dos especialistas - Educação07/03/18 By: Ana Lú Gerodetti
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Oie, moms!

Tudo bem?

No mês passado, a nossa colunista e psicóloga, Daniela Nogueira, fez um texto super bacana falando sobre levar o bebê para a creche ou deixá-lo em casa (você pode ler o texto completo clicando aqui).

Recebemos o retorno de muitas leitoras que se identificaram com o post e, hoje, a Daniela, que também é idealizadora do projeto Pais Em Ação, nos escreveu um novo texto muito real sobre a ida dos bebês para creches e a forma como estão recebendo os pequenos.

Confiram!

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Quem acompanha o Pais em Ação sabe que eu me aprofundei nos estudos da abordagem Pikler na França e RIE nos EUA e ao continuamente estudar (escrevo assim porque eu não vou parar nunca) e após ter conversado com pediatra, psiquiatra, psicólogos, diretoras de instituições e ter visitado diversas creches em ambos países algo ficou muito claro: bebês e toddlers NÃO PRECISAM de currículo.

Em qualquer lugar do mundo pais e mães têm que trabalhar ou precisam de tempo para si e necessitam de um local de acolhimento para seus bebês.

Não podemos fugir da realidade: creches, pré-escolas e locais que acolhem crianças pequenas são extremamente necessários na nossa sociedade.

Baseando-se num olhar de respeito às necessidades reais de um bebê ou toddler, existem hoje alguns problemas nas creches: o modo como essas crianças são recebidas, como o espaço é pensado e construído; a falta de treinamento e estudo específico sobre o desenvolvimento de bebês por parte de quem cuida deles, mas principalmente, as expectativas enganosas dos pais em relação àquilo que seus filhotes deveriam estar “fazendo” enquanto estão na creche. Todos estes fatores estão interligados e junte à eles o fato de que cuidar de crianças é e sempre foi um business, é preciso sensibilidade e atenção, além de conhecimento sobre o que um bebê realmente precisa, para que nós como sociedade possamos começar a oferecer espaços de acolhimento mais respeitosos para estes pequenos seres humanos.

Hoje a neurociencia pode comprovar o que a pediatra Emmi Pikler e Magda Gerber já falavam desde a década do pós guerra: os três primeiros anos de vida são fundamentais na formação do indivíduo, seu cérebro, psiquismo, construção corporal e o fato de que o melhor lugar para este bebê estar durante este período (0 a 3) é ao lado de sua família; mas como isso nem sempre é possível, ao mandá-lo para a creche – para a coletividade o único “currículo” necessário são os CUIDADOS de sua educadora/berçarista/professora. Ou seja, o currículo é o cuidado dela para com o seu filho. E só!

Ao bebê deve ser oferecido a continuidade da segurança de sua casa através de uma relação que vai sendo construída aos poucos com sua educadora através dos cuidados que ela dá. Todos esses cuidados – que muitos consideram um trabalho “subalterno” como a troca de fralda, o banho, a refeição, literalmente ajudam a construir o cérebro do seu filho! Reforçam e abrem caminhos neurais! No olho a olho, nas conversas, na intimidade, daí a importância de se manter a mesma cuidadora do começo ao fim, o mesmo padrão de cuidado. Isso é ciência e não a minha opinião.

Depois que a educadora se ocupou de tudo isso com seu bebê ela pode deixa-lo tranquilo para explorar o que ele bem quiser, mas principalmente, o próprio corpo, através dos movimentos livres, da motricidade livre. Além disso, ele pode praticar a autonomia de escolher o que brincar, o que explorar.

Mas e o inglês? E o violão tocando alto junto das vozes dos adultos? E as famosas “atividades”? Elas não são necessárias por agora papai e mamãe! Pense comigo: seu bebê ainda não se sabe como um “EU” à parte, ele ainda não tem uma representação de si. Já repararam como bebês pequenos ficam juntos mas não “brincam juntos”? Isso se dá porque é difícil enxergar o “nós” quando ele ainda não integrou o “eu” e isso é um processo longo que pode ultrapassar os 3 aninhos de vida. Então, que vantagem há em fazer um grupão de bebês “cantar” juntos? Ou “ensiná-los” a olhar imagens e identificar objetos? A maturação precede a aprendizagem, então, muita calma! Vai ter tempo para tudo.

Mas não se enganem: o cérebro humano é uma máquina! As crianças dão conta sim de muita coisa dos currículos oferecidos nas escolas, mas isso em hipótese alguma significa que o lado emocional do seu filho caminha lado a lado com o conhecimento, muitas vezes vazio, desses conteúdos. Já repararam como aumentou a demanda por terapia, por psicomotricidade, entre outras especialidades quando a criança cresce mais? Lá vai ela para o consultório, muitas vezes fazer atividades e práticas que ela deveria ter feito quando era pequena e estava ocupada com os afazeres precoces de currículos precoces.

O começo da mudança está em vocês mesmos pais, ao entenderem que bebê e criança pequena precisa de LIBERDADE, bons cuidados e ZERO currículo. Se todos os locais de acolhimento insistem em oferecer cada vez mais maluquices para crianças cada vez menores é porque vocês mesmos, queridos pais, ainda procuram por isso.

Acreditando de todo bom coração que estarão oferecendo o melhor para seus bebês, que estarão encaminhando estes bebês para um futuro onde eles estarão “mais preparados” mas segundo a neurociência, segundo os índices cada vez mais altos de ansiedade infantil, entre outros fatores, vemos que isso não é verdade. Lembrando que este texto se refere à primeira infância, dos zero aos 3 anos.

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Por Daniela Nogueira

Especializada na abordagem Pikler-Lóczy em Paris, França, está envolvida no universo infantil há mais de 15 anos com experiências em co-educação nos EUA, trabalho terapêutico em instituições e abrigos para crianças e atuação como professora na educação infantil em escolas particulares de São Paulo e Rio de Janeiro.

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