A Baleia Azul e a automutilação: quando o tráfico é de ilusões – por Renata Soifer

De Mãe para Mãe - Dicas dos especialistas - Psicologia17/05/17 By: Renata Soifer Kraiser
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Olá, moms!

Tudo bem?

Recentemente, uma onda de notícias sobre a “Baleia Azul”, um suposto jogo com uma série de desafios de automutilação, percorreu a internet. Ao mesmo tempo, temas relacionados ao suicídio, depressão e muitos outros assuntos sobre saúde mental viraram pauta.

Para falar um pouco mais sobre a tecnologia e as emoções dos pequenos, a nossa querida colunista e psicóloga, Renata Soifer Kraiser, fez um texto bastante esclarecedor e importante, que merece toda a nossa atenção.

Confiram!

 


 

A Baleia Azul e a automutilação: quando o tráfico é de ilusões

 

A Baleia Azul e a auto mutilação: quando o tráfico é de ilusões - por Renata Soifer

 

Ninguém estudou na faculdade e nenhum pai ou mãe ouviu conselhos sobre como lidar com uma tecnologia que simplesmente não existia.

O mundo derrubou as paredes das casas invadindo espaços antes seguros. O quarto de nossos filhos, a escola e até o carro em movimento. A internet escancarou as fronteiras que nos protegiam.

Paralelamente, a educação nunca esteve tão em pauta. Proibiram os pais de educar. Não se pode mais dizer “não”. Ninguém pode chorar, frustrar e nem entrar em contato com emoções “menos nobres”. Os pais fazem tudo pelos filhos. Não lhes falta nada.

A vida virtual foi invadindo a vida real. Os grupos do Face, as discussões (muitas delas bem agressivas), competições para ver quem amamenta mais, quem ama mais, quem é mais grudado, politizado, e por aí vai…

Tantas transformações, tão rápidas, que nós, pais, fomos pegos de surpresa.

Na calada da noite, ou no meio da tarde, sem hora para chegar, a ideia da automutilação penetra a mente de nossos filhos trazendo o alívio das drogas e viciando da mesma maneira.

O que leva uma pessoa a machucar a si mesma?

Claro que os motivos são variados, mas a raiz do problema é uma mistura entre alívio, prazer e criação de uma identidade.

Se na infância eu sou, ou quero ser como meus pais, na adolescência é o momento em que abraçamos a identidade de um grupo, nos identificamos com ela e a adotamos. Eu ainda não sou eu. Eu sou aquilo que o grupo é.

Sabendo disso, nossos pais e avós ficavam de olho nas companhias: “Diga me com quem andas e te direi quem és!” Mas hoje isso está cada vez mais difícil.

Grupos de WhatsApp, de Facebook e até mesmo redes sociais na Rússia invadiram nossos lares. E foi justamente em uma dessas redes onde nasceu o Jogo da Baleia Azul.

Aproveitando-se da fragilidade dessa idade e da onda da prática da automutilação, a Baleia Azul veio mostrar ao mundo que o perigo não está mais fora de casa. O perigo está dentro. Tão dentro que penetrou na mente dos jovens.

A dificuldade com limites, oriunda de pais desautorizados a educar, gerou ansiedades e angústias com a qual os jovens não sabem lidar.

Da mesma maneira que muitos bebiam/bebem até cair, usam drogas para aliviar sentimentos difíceis, a pessoa que se automutila busca alívio e consegue por meio da reação do próprio corpo aos cortes.

Ao se cortar, o corpo produz endorfinas que vêm para anestesiar a dor dos cortes, acompanhada da adrenalina própria das coisas “erradas” ou proibidas. Tudo isso associado a impulsividade própria da adolescência e a sensação de pertencimento que aparece quando o jovem passa a fazer “parte” do grupo de amigos que também se cortam.

Assim, fotos dos cortes circulam pela internet, tiradas pelos próprios jovens para mostrar sua coragem e façanha.

Estamos diante de um fenômeno social.

A pele, superfície que delimita, que separa o eu do mundo, o limite onde eu começo e termino e onde começa e termina o outro e tudo o que não sou eu, tem suas fronteiras rasgadas, invadidas, perfuradas. O que está dentro de mim, sai para fora. A angústia agora tem um lugar. Uma forma. Ela não é tão insuportável, pois eu posso vê-la e até lidar com ela de alguma maneira.

Quem já foi adolescente sabe como é difícil administrar todas as angústias e ansiedades próprias dessa fase. Mas por que agora dessa forma tão perigosa, tão assustadora?

Eu acredito que é uma mistura dos pontos colocados: um fenômeno social, alívio, excitação e dificuldade em lidar com limites.

Dessa forma, o traficante que antes estava na porta das escolas, na balada ou no bar, agora está dentro da mente dos nossos jovens. Ele não vende nada além da ilusão de que se cortar vai ajudar a resolver, ainda que momentaneamente, as mazelas que todos nós vivemos.

O remédio para isso? Muita terapia, diálogo e a certeza de que todos temos problemas e que se cortar não vai resolvê-los; ao contrário, só vai trazer mais um problema para resolver, pois assim como as drogas, a prática da automutilação vicia e precisa ser tratada.

Se você perceber que seu filho mudou o comportamento, esta mais triste, agressivo e irritado que o normal, parece distante e não quer conversar, preste atenção. Talvez ele esteja com dificuldade para lidar com suas emoções.

Diálogo e muita abertura são o primeiro passo para entender o que se passa e, se for o caso, contar com a ajuda de um profissional como psicólogo e/ou psiquiatra.

 


 

Renata Soifer Kraiser é psicóloga e Mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Autora do livro “O sono do meu bebê”, ed.CMS, fruto de seu mestrado sobre este tema.

Para conhecer melhor o trabalho da Renata, acesse: www.terapeuta.psc.br.

Telefone: 11-3031-4043

 

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